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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Verão, figos, gelados e poemas

24.06.15, Alice Alfazema

Fotografia e receita aqui.

 

A maneira correcta de comer um figo à mesa

É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,

E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,

        desabrochada em quatro espessas pétalas.

 

Depois põe-se de lado a casca

Que é como um cálice quadrissépalo,

E colhe-se a flor com os lábios.

 

Mas a maneira vulgar

É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

 

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.

Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:

Parece masculino.

Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é

       uma fruta feminina.

 

Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:

A fenda, o yoni,

Magnífica via húmida que conduz ao centro.

Enredada,

Inflectida,

Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;

Com um orifício apenas.

 

O figo, a ferradura, a flor da abóbora.

Símbolos.

 

Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;

Agora é uma fruta, a matriz madura.

 

Foi sempre um segredo.

E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre

     secreta.

 

Nunca foi evidente, expandida num galho

Como outras flores, numa revelação de pétalas;

Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana

    das flores da nespereira e da sorveira,

Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos,

Clara promessa do paraíso:

Ao espinheiro florido! À Revelação!

A corajosa, a aventurosa rosácea.

 

Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,

A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,

Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as

   próprias cabras;

Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,

A nudez oculta, a floração para sempre invisível,

 

Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;

Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima,

Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta,

Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação

Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem

 devassar

Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando

   a alma.

 

Até que a gota da maturidade exsude,

E o ano chegue ao fim.

 

O figo guardou muito tempo o seu segredo.

Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.

E o figo está completo, fechou-se o ano.

 

Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura

Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.

Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.

 

Assim também morrem as mulheres.

 

Demasiado maduro, esgotou-se o ano,

O ano das nossas mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Foi desvendado o segredo.

E em breve tudo estará podre.

 

Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

 

 

Quando no seu espírito Eva soube que estava nua

Coseu folhas de figueira para si e para o homem.

Sempre estivera nua,

Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.

 

 

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.

E desde então as mulheres não pararam de coser.

Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.

 

Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,

E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.

 

Agora, o segredo

Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates

Que riem perante a indignação do Senhor.

 

Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.

Muito tempo guardámos o nosso segredo.

Somos um figo maduro.

Deixa-nos abrir em afirmação.

 

Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.

Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.

Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.

Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na

     sua afirmação?

Quando os figos abertos se não ocultarem?

 

 

in As Magias, D. H. Lawren, versão de Herberto Hélder

 

Alice Alfazema

 

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