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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Diário dos meus pensamentos (14)

Abril

02
Abr20

E já chegámos a Abril, ontem o dia esteve chuvoso, mas hoje o Sol brilhou convidativo à lavagem de roupa e aos passeios à janela. O almoço foi arroz de frango com cogumelos seguido de um café tirado na máquina que recebi pelo Natal. Antes do almoço estive a estender a roupa, enquanto estendo e não estendo a minha vizinha que é professora na escola onde trabalho chama-me, aceno-lhe, e pergunto-lhe se está tudo bem, ouvem-se as nossas vozes na rua vazia, o vizinho de cima mete-se na conversa e uma outra vizinha do prédio ao lado também dá o ar de sua graça. Parece que de repente a rua se animou, mais ao fundo alguém falava ao telemóvel na varanda, e de repente tudo parecia normal, está Sol, é Primavera, estamos no começo de Abril, os pombos andam à espera de migalhas, as flores silvestres despontam alegremente, os cães ladram e nós assim à conversa de janela para janela, falando sem se importar com a privacidade, numa intimidade comunitária de bairro antigo. 

Diário dos meus pensamentos (7)

De manhãzinha

26
Mar20

Levantei-me cedo e fui comprar pão ao café do bairro, havia um frio que me arrepiava, as janelas dos prédios estavam quase todas fechadas, alguém no prédio ao lado vai mudar de casa, os homens que tratam da mudança perguntaram-me se sabia de quem era o carro que estava por debaixo da janela, respondi que não sabia, mais à frente havia um carro na estrada e um homem passeava o cão, é o homem que trabalha no talho do Pingo-doce, disse-lhe bom-dia. Comprei o pão e vim para casa, voltei então a sair para passear o Ginjas.

 

Desci então com o cão, e deixei-o cheirar as flores silvestres, demos um pequeno passeio em frente da casa, coisa pouca dizia-me ele, então decidi ir em frente, pelo meio da estrada, a estrada era só nossa, ele apresentava-se com um andar tranquilo e bamboleante, assim uma coisa como um bailarino de ballet clássico, cabeça erguida, orelhas em pontas, pescoço altivo e pernas leves. Quando alguma coisa lhe chama a atenção, aumenta o seu campo de visão pondo-se em pé, e é capaz de andar assim durante algum tempo. 

 

A brisa fresca da manhã torna-se então agradável, aqui tudo parece normal, as árvores estão a cobrir-se de folhas verdinhas, os pássaros cantam, não sei se cantam para mim, mas desconfio que sim, porque se assomam à minha frente, e fazem voos rasantes, vejo o castelo ao longe, parece que me acena, agora tudo me parece animado, os homens das obras continuam a construir o prédio, há outro em construção mais à frente, vejo que cortaram duas árvores grandes para o fazer, entristece-me. 

 

Dou meia-volta e regresso ao caminho de casa, agora há mais janelas abertas, uma mulher olha-me por detrás do vidro, tem uma blusa às flores, os passeios estão limpos e desinfectados, o meu vizinho do lado tem a bandeira nacional à varanda, não há ninguém na rua, começa hoje a fase de mitigação, reparo então num pano grande e branco, com um enorme arco-íris e a dizer - vamos ficar todos bem. É do meu vizinho de baixo. Penso, então que tenho de fazer qualquer coisa para colocar à minha janela. 

Uma pergunta por dia: Conhece os seus vizinhos?

11
Out13

Muitos nasceram
outros cresceram
e depois partiram
muitos envelheceram
e depois morreram
na rua em que moro...

Mas deixaram os seus fantasmas
sorridentes e falantes
perambulando pelos meus sonhos
enfeitando as minhas lembranças...

Alguns deles voltaram
para matar a saudade
depois de trocarem de idade
mas nunca nenhum deles voltou
para me falar da eternidade...

 


Aldina Ferraz Santos


 


Uma pergunta por dia até ao final do ano, quem quiser responder esteja à vontade.



Alice Alfazema