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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Gratidão por desconhecidos

18
Set20

o elefante e o homem.jpg

Nesta imagem serena mora um homem que vê passar o tempo, e que sabe que só ele leva as mágoas para longe. E sabe  também que o tempo tem a capacidade de unir e separar, de ser cruel e bondoso. Todas as vidas que se cruzaram e separaram enquanto escrevi este paragrafo? Não sei, ninguém sabe, apenas o tempo, esse que passa e não o sentes.

Dedicar a nossa vida aos outros é uma tarefa árdua e longa, que exige uma dádiva constante. É maravilhoso vermos  que existem pessoas que se dedicam aos outros muito mais que a si mesmo. E fazem-no de sorriso no rosto, com gosto, num desprendimento total de posse. 

 

o hoem e a iena.jpg

 

A importância da bondade espontânea vê-se a cada gesto de carinho partilhado entre homens e animais. A bondade prova que a descrença vale tão pouco. Num mundo em que somos mais iguais do que aquilo que nos pregam. A sensação de partilha de um amor que nos é intrínseco.  

 

pangolin.jpg

 

O meu sentimento de gratidão por gente assim é enorme. Emociona-me esta entrega, estes sorrisos, esta vida simples, mas tão grandiosa. Compreendo este amor que não se explica facilmente em palavras, pois é um amor mais prático, feito de gestos, de escolhas, de decisões difíceis, de morte. É um amor de quem sabe que pode ser a última oportunidade para existir. 

 

 

 

 

Fotografias Wild Is Life ver mais aqui.

 

Bom dia :-)

19
Nov17

 

Enfunando os papos, 
Saem da penumbra, 
Aos pulos, os sapos. 
A luz os deslumbra. 



Em ronco que aterra, 
Berra o sapo-boi: 
- "Meu pai foi à guerra!" 
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". 



O sapo-tanoeiro, 
Parnasiano aguado, 
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado. 

 

 

 

Vede como primo 
Em comer os hiatos! 
Que arte! E nunca rimo 
Os termos cognatos. 



O meu verso é bom 
Frumento sem joio. 
Faço rimas com 
Consoantes de apoio. 



Vai por cinquüenta anos 
Que lhes dei a norma: 
Reduzi sem danos 
A fôrmas a forma. 



Clame a saparia 
Em críticas céticas:
Não há mais poesia, 
Mas há artes poéticas..." 

 

 

 

Urra o sapo-boi: 
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!" 
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". 



Brada em um assomo 
O sapo-tanoeiro: 
- A grande arte é como 
Lavor de joalheiro. 



Ou bem de estatuário. 
Tudo quanto é belo, 
Tudo quanto é vário, 
Canta no martelo".

 

Outros, sapos-pipas 
(Um mal em si cabe), 
Falam pelas tripas, 
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!". 

 

 

 

Longe dessa grita, 
Lá onde mais densa 
A noite infinita 
Veste a sombra imensa; 



Lá, fugido ao mundo, 
Sem glória, sem fé, 
No perau profundo 
E solitário, é 



Que soluças tu, 
Transido de frio, 
Sapo-cururu 
Da beira do rio...

 

 

Poema de Manuel Bandeira

 


E tu que lês-te isto, que tipo de sapo és tu?

 

 

 

 

 

Alice Alfazema