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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

As mulheres

12
Out25

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As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Poema Daniel Faria , in Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)

 

Quando as folhas caem

28
Set25

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Aprecio especialmente gente que é resiliente, que não se resume apenas a ser um corpo, que acredita, mesmo na dor, que é possível, e mesmo, tal como uma árvore durante um temporal, tendo sido levado ao limite continua para além dele, mergulhando no seu pequeno espaço cinzento, enfrentando os medos, as crenças e os traumas, rasgando barreiras invisíveis feitas de momentos de solidão que ninguém conhece.

 

Como um vento na floresta,
Minha emoção não tem fim.
Nada sou, nada me resta.
Não sei quem sou para mim.

E como entre os arvoredos
Há grandes sons de folhagem,
Também agito segredos

No fundo da minha imagem.

E o grande ruído do vento
Que as folhas cobrem de som
Despe-me do pensamento:
Sou ninguém, temo ser bom.

Fernando Pessoa, in “Poesias Inéditas” 

 

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As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,

que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga, in “Herbário”

 

E porque hoje é dia internacional do blog

31
Ago25

Logo pela manhã a Maribel relembrou-me que hoje é o dia internacional do blog, é muito interessante aquilo que reflecte neste postal do dia de hoje. 

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Este blog à beira mar plantado, literalmente,  do qual vos escrevo, tem quinze anos de vida, que este ano não assinalei, daqui me permito dar asas à escrita e à imaginação, se bem que não tenho sido muito assídua, mas isso é exactamente a liberdade que um blog nos dá, não vejo que tenha de haver arrependimentos, nem desculpas sobre isso, porque por vezes a vida nos leva a percorrer carreiros de cabras em que é difícil voltar à estrada, e foi exactamente isso que aconteceu, não que seja mau, quando está a acontecer parece, dói no corpo e na alma, mas depois é um despertar totalmente diferente, tal como viajar nos torna outros, ultrapassar obstáculos também nós dá sentimento de medalha ao peito.

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Quando comecei aqui a escrever, não precisava de óculos para o fazer, hoje tenho de colocá-los, os meus filhos eram menores de idade, nunca tinha tido um cão, não tinha uma licenciatura, de entre outras coisas, hoje tenho tudo isso, foi um longo caminho que percorri. Não tenho razões de queixa deste espaço, fui sempre bem recebida e acarinhada, algumas vezes mencionada por outros blogs e até pela Equipa do Sapo.

Gostaria de destacar especialmente que é muito gratificante a partilha das gentes que pertencem aos blogs do Sapo, recebo frequentemente comentários que me trazem mensagens das quais preciso naquele momento e que me levam a reflectir sobre o quanto fazemos falta uns aos outros, tenho contudo, saudades dos que se foram como brisas, fazem-me falta, quer pela sua escrita, quer pelo seu sentido de humor ou critico, no entanto é de relembrar, que “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

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As frases no fundo negro são uma homenagem a Luís Fernando Veríssimo, que nos deixou esta semana, e é isto, vamos perdendo as referencias, como fruta madura que fica no chão.