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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Normalidade

19.07.21, Alice Alfazema
  Ilustrações Feras Sobh Normalmente as riscas lembram-me de normalidade, o normal de estarem acima e abaixo umas das outras, criando padrões parados ou dinâmicos. O normal de uns acima da normalidade de outros. A normalidade formal. A norma que se junta a outra já instituída. A normalidade da boa aparência seguida de boa gente. Normalmente pela boca morre o peixe. Normalmente o fraco cala-se. Quando a normalidade se acentua o fraco grita. Cria fôlego, pisa a risca. Risca-se a (...)

Antes que os figos se acabem

03.09.20, Alice Alfazema
  Antes que os figos se acabem, e com eles o gosto fugaz do Verão. Comerei o seu doce sabor, meloso e suave que  me deixa os dedos pegajosos. O figo sereno, figo maduro, figo seco. Onde se escondem os amores fatais das vespas. Amores intensos e mortais em dias de muito calor. Comemos assim o Amor, escorrido na nossa saliva, degustado num entardecer ao canto intenso das cigarras. Então, na ponta dos nossos (...)

"Justa é a forma do nosso corpo"

28.07.20, Alice Alfazema
  Ilustração Jessica Watts     Os dias de verão vastos como um reino Cintilantes de areia e maré lisa Os quartos apuram seu fresco de penumbra Irmão do lírio e da concha é nosso corpo Tempo é de repouso e festa O instante é completo como um fruto Irmão do universo é nosso corpo O destino torna-se próximo e legível Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem Como se em tudo aflorasse eternidade Justa é a (...)

A última página

19.07.20, Alice Alfazema
Ilustração Irene Blasco   Sentei-me e quando me levantei era outra. Li e quando acabei de ler as minhas ideias ficaram mais fluidas. Sorri e aliviei a pressão do meu não sorriso. Naquele pedaço de tempo viajou por onde queria uma mulher sentada, parecia que não saía do lugar, enquanto folheava as páginas daquele livro que continha grãos de areia da sua praia favorita, nalgumas folhas haviam manchas de sal, daquele mar especial, podia ter posto um marcador de madre-pérola, mas (...)

São João

24.06.20, Alice Alfazema
  Ó meu rico São João, que andas aí em cima desconfinado vem cá abaixo acudir à malta  que está tudo descompensado   ...   Um São João sem gente Numa rua tão abandonada Diz-me assim de repente Onde posso comer sardinha assada   ...   Por não poderem ir ao Mercado Sair de casa é muito arriscado!   ...   Ó Menina ponha a máscara Se quiser sair desse confinamento deixa o teu olhar bailar até encontrar o enamoramento   ...   Encontrar o enamoramento! Com tanto confinamento (...)