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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Micro contos - O juízo

25.10.15, Alice Alfazema
  Ilustração  Selçuk Demirel     Perdeu o juízo dos dias e das coisas, mas por vezes parece ter bons momentos de lucidez. Lembra-se bem do antigamente e sabe que vai chover quando olha o céu. No entanto, não sabe onde está o pacote do leite, não o reconhece. Esconde pacotes de bolachas por toda a casa. É uma felicidade quando os reencontra.   Alice Alfazema

Cravos e hortelã

24.07.14, Alice Alfazema
    O quintal do meu sogro é assim uma mistura de flores com ervas aromáticas, tudo ao molho e fé em Deus. Deu-me ontem um ramo de chá, perguntei-lhe que chá já era aquele, respondeu-me que é de uma erva maluca, pergunto-lhe outra vez para ver se ele se recorda do nome da planta, é duma erva maluca, mas não é doce-lima. Sendo assim uma hipótese já foi (...)

Libertação

10.07.13, Alice Alfazema
  À medida que o tempo passa nada podemos fazer para o agarrar. É certo que a velhice chegará.  Vejo que a discriminação em relação à velhice cresce, na medida em que constantemente somos bombardeados com a apelação dos mass média para a imagem jovem, sorridente, perfeita. Enfim, tudo poderá ser perfeito num mundo ficcionado. Num mundo real, há que enfrentar preconceitos, descriminações e libertar-se de medos.    Porque não há-de uma mulher de 72 anos exibir o corpo (...)

Tratamento para a depressão

27.01.13, Alice Alfazema
   Pintura de Marie Bashkirtseff   Ao lembrar-me do tratamento para a depressão ocorre-me também os tratamentos para as doenças da velhice e ainda a dependência pelos subsídios. Em todos os casos não se tratam as causas, mas apenas os sintomas. Nos três casos as pessoas são levadas a pensar que são incapazes de desenvolver capacidades para ultrapassar os seus obstáculos. Se na depressão o uso de fármacos é a alternativa, já na velhice é a própria fase da vida que é (...)

A velha

24.05.12, Alice Alfazema
    A velha vive há mais de cinquenta anos na mesma casa é um peso na sociedade, já passou fome e, volta agora a passar fome. A velha tem uma reforma de merda, no entanto tem um sorriso genuíno, os dentes é que são postiços, está só.   Está só, não tem telefone, nem comida no frigorifico; trabalhou toda a vida, o valor do seu trabalho não existe. Vive na (...)

Pai natal amarelo

29.04.12, Alice Alfazema
    Quase todos os dias passo por uma casa onde moram uns chineses, quando por lá passo há sempre alguém que, ou está a regar as plantas, ou à janela, ou simplesmente a espreitar. Dá-me a sensação que será a avó lá da casa. Magrinha. Sempre com um sorriso na cara, daqueles sorrisos que contagiam. Uma figura impar. Pelo menos por estas bandas.   A senhora tem a (...)

Bonecas

22.02.12, Alice Alfazema
    Já me perdi no tempo. Meus cabelos ficaram brancos e baços. Já brinquei com bonecas. Dei gargalhadas cristalinas. O tempo passou, e eu azedei. Criei nata, como um leite esquecido, coalhei. E o bolor veio, entranhando-se-me nos  ossos. Quero inverter isto, quero que a pele se alise, que os músculos voltem à sua rigidez original. Não posso, o tempo não me deixa. (...)