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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Empatia

Árvore de Natal

09
Dez22

ratos.jpg Ilustração Vasco Gargalo

 

Os ratos invadiram a cidade
povoaram as casas os ratos roeram
o coração das gentes.
Cada homem traz um rato na alma.
Na rua os ratos roeram a vida.
É proibido não ser rato.

Canto na toca. E sou um homem.
Os ratos não tiveram tempo de roer-me
os ratos não podem roer um homem
que grita não aos ratos.
Encho a toca de sol.
(Cá fora os ratos roeram o sol).
Encho a toca de luar.
(Cá fora os ratos roeram a lua).
Encho a toca de amor.
(Cá fora os ratos roeram o amor).

Na toca que já foi dos ratos cantam
os homens que não chiam. E cantando
a toca enche-se de sol.
(O pouco sol que os ratos não roeram).
                              Poema de Manuel Alegre

Plantação de coronavírus

10
Set22

A partir de uma certa idade, isto é como quem diz, depois de uns cabelos brancos, de umas peles flácidas, e por aí fora, ficamos a entender que está tudo escrito na natureza, e que a nossa espécie pouco ou nada inventou, bem talvez aquilo que inventámos de raiz tenha sido a malvadez e um deus que não ama o macho e a fêmea da mesma forma.

Morreu a Rainha

Isabel II

08
Set22

morreu a rainha.jpg Morreu a Rainha. Morreu a Mulher. 

Sou uma desconhecida na vida desta mulher, no entanto sinto que me é próxima, sei razoavelmente a sua história de vida, conheço as cores vivas com as quais se vestia em cerimónias importantes, conheço o seu sorriso, lembro-me de vê-la desde sempre. Foi uma uma mulher que viveu a sua vida em missão aos outros, com um importante sentido de Estado, com uma jovialidade surpreendente,  adaptou-se ao mundo e à evolução dos tempos, mantendo um sentido de humor e uma resiliência surpreendentes. Manifestou estar sempre disposta a aprender. Foi a Mulher - muitas vezes só - entre homens. A ironia da História, da mais frágil a mais forte. Vou ter saudades dela. 

1926-2022

 

Micro contos - O juízo

25
Out15

 

Ilustração  Selçuk Demirel

 

 

Perdeu o juízo dos dias e das coisas, mas por vezes parece ter bons momentos de lucidez. Lembra-se bem do antigamente e sabe que vai chover quando olha o céu. No entanto, não sabe onde está o pacote do leite, não o reconhece. Esconde pacotes de bolachas por toda a casa. É uma felicidade quando os reencontra.

 

Alice Alfazema