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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

sementes

28
Dez21

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Guarda a semente que te traz o vento
porque o deserto vai até onde o eco das palavras não chega.
Não desperdices o que nasce a cada momento
porque a noite é mais densa que a luz dos olhos
e mais extenso o mundo que a noite mais densa.
 
Guarda o que se perde a cada passo, os cacos que restam
das visitas do amor.
Recolhe as pétalas que sobram
que as magnólias serão debulhadas até aos confins
da nebulosa e espezinhadas as rosas até
à raiz do espinho.
 
Uma só semente, um grão que seja
na roda do vento, contém suspenso o universo
a flor renascente da vida.
 
 
Poema de Rui Miguel Fragas 
 
 

Ler o mundo

29
Mai21

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Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.
 
Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?
 
Mia Couto, in  E se Obama fosse africano ?