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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

#diariodagratidao 04-06-2019

04.06.19, Alice Alfazema
  Ilustração  Robert Dunn     O som do relógio Tem a alma por fora, Só ele é a noite E a noite se ignora.   Não sei que distância Vai de som a som Rezando, no tique Do taque do tom.   Mas oiço de noite A sua presença Sem ter onde acoite Meu ser sem ser.   Parece dizer Sempre a mesma coisa Como o que se senta E se não repousa.     Poema de Fernando Pessoa  

Pedalar no tempo

27.12.18, Alice Alfazema
  Ilustração Olga Salamatova   Aí, de repente, os meus olhos se abriram, e vi como nunca havia visto. Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro do jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão a lenha, as árvores (...)

Interrogação

11.12.18, Alice Alfazema
  O Amor saltou imediatamente para o barco. Fez a viagem em silêncio, junto de um velho simpático de quem nem sequer soube o nome. Quando chegou a terra firme, o Amor foi falar com a Sabedoria: - Quem era aquele velho que me trouxe até aqui?   - O Tempo. - O Tempo? Mas porque me salvou a vida? - Porque só o Tempo é capaz de compreender a importância do Amor.       António Estanqueiro, 99 Histórias de Sabedoria

Fui comprar pão

04.10.18, Alice Alfazema
  Ilustração  Nerina Canzi   Fui comprar pão de manhãzinha, havia um nevoeiro cinzento e suspenso no céu. Senti o frio nos meus braços, mas não em modo de arrepio, foi mais uma coisa fresca, um alivio do calor dos últimos dias. Passei pelas grandes árvores, e ouvi o barulho das suas folhas a caírem no chão, pensei: mais uma despedida de verão.    Caem então umas atrás das outras, levando cada dia dos meses que passaram, as horas que olhei para elas, senti-me um (...)

Às vezes é preciso

22.09.18, Alice Alfazema
    Ilustração Wayne Anderson      Por vezes vivemos assim, crescemos, e habituamo-nos aos lugares, às coisas e às pessoas, temos medo de mudar, ou temos saudades daquilo que fomos. Chega então um tempo em que o espaço já não existe, há apenas um corpo moldado à rotina, apertado no espaço e na mente. Um corpo que anseia por novas experiências. Um corpo que sabe que o tempo se encurta a cada dia que passa.    Às vezes é preciso ficar muito mal e deixar de se importar (...)

O tempo

30.10.16, Alice Alfazema
  Ilustração Francesca Baerald   Peguei no tempo e guardei-o, para gastá-lo quando quiser. Peguei no tempo e voei nele. Peguei no tempo e gastei-o todo, agora não tenho tempo. Depois o tempo pegou em mim e gastou-me, cansou-me, amoleceu-me, paralisou-me. Peguei outra vez no tempo e soltei-o, agora vou apanhá-lo. Vou dividi-lo, cortá-lo em pedacinhos e engoli-lo.      Alice Alfazema