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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O Sol

15
Jun20

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Ilustração Elisa Chavarri

 

O Sol para uns é algo bonito, para outros não passa de algo comum a que nos habituamos a ver todos os dias, mesmo que esteja escondido, sabemos que está lá na mesma. Uns preferem ver o nascer do Sol, outros o pôr do Sol, eu prefiro o primeiro, gosto de expectativas, de começos, da manhã, da energia a crescer, de ver a Natureza numa azáfama para acolher um novo dia, os zumbidos das cigarras em pleno Verão sob um Sol abrasador. Encantam-me os pássaros que acordam cedo dando ordem de levantar para os mais dorminhocos. Há dias acordei às quatro e meia da manhã com um desses cantores matutinos. Acordem, acordem, dizia ele na sua voz melodiosa, que palavras bonitas podem dizer-se através do canto dos pássaros? Que entendemos nós, seres mais inteligentes do planeta, desta linguagem? E de outras? E até da nossa própria linguagem? Eu digo doce, mas há quem diga que não é, ou outros que dizem que é enjoativo, e se acrescento mais qualquer coisa há quem já não entenda que é doce e assimile outro estado de degustação.

 

E o Sol estava a ler, um livro muito complicado, porque a cada minuto tinha de parar para reflectir sobre a linguagem utilizada, uns diziam isto, outros aquilo, uns tantos aqueloutro, tudo misturado parecia que nada dizia com nada. Então decidiu escrever sem palavras, escreveu a Primavera, o Verão, o Outono, o Inverno, mas quase ninguém entendia que tudo era diferente, porque já tinha sido igual. E os anos passaram, uns morreram e outros nasceram, as paisagens ficaram diferentes, os pássaros cantaram, quase sempre o mesmo canto, e ninguém entendia a canção, porque para deslindar esta linguagem não se utilizam os sentidos. Observou-se e registou-se o som, e ele esteve sempre ali para quem o podia ouvir, anos e anos. Até desistirmos de entender e começarmos a sentir o que realmente andamos aqui a fazer.

 

 

 

 

Diário dos meus pensamentos (34)

22
Abr20

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A  portaria cheirava a mofo. A escola estava vazia, não só há um afastamento social, como também há uma anulação das vozes, é como se as pessoas poupassem em palavras para gastarem em pensamentos. As nêsperas estão todas depenicadas pelos pássaros, as avencas levaram um desbaste valente, hão-de crescer, como crescem sempre. Os pombos continuam a procriar, a árvore de maçã riscadinha está cheia de flor, este ano talvez vingue alguma maçã. Alguns pais vieram buscar os livros aos cacifos dos filhos, outros os trabalhos escolares para fazerem em casa, alguns vão recebê-los pelo correio. Uns ficaram admirados com a lixarada que viram dentro dos cacifos, uma mãe reconheceu a caixa da comida há muito perdida, viram também um coração desenhado com uma declaração de amor. Eu ri-me, nada daquilo é novidade para mim. Até elogiei a arrumação, dizendo que há piores. Perguntaram-me se tinha saudades deles, perguntei também aos pais se tinham saudades nossas, riram-se, a mãe disse que tinha saudades da escola, ela é que tinha, ri-me.   

Diário dos meus pensamentos (22)

10
Abr20

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Sabes, passo pelas pontes sem as ver.
Talvez o rio abundante se tenha já secado.
Vieram chuvas risonhas que murmuraram
Segredos e promessas. Partiram velozes
Os sussurros. E as promessas.

Sabes, o cais onde atracam barcos e
Pessoas apressadas que levam sonhos
E moradas nas algibeiras, fica desgarrado
Quando todos partem de olhos pejados de azul.

Sabes, certa noite, silenciosa e confidente,
Pois nela me acolhi, na fresta entre duas
Tábuas do chão gasto, era branco um papel dobrado.
Abri-o como quem descobre um segredo. E li.
Um dos homens mais apressados, daqueles
Que estão sempre com as horas nas mãos,
Deixou cair de entre o seu amor às oportunidades
Um pequeno e terno recado.
Esqueceu-se que dentro dos papéis
É que se escondem os sonhos…

 

 

 

Poema Lília Tavares, in Evocação das águas