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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A linha da vida

Saúde mental

10
Out22

a linha da vida.jpg 

Ilustração  Nicky Photo et création numérique

 

«Somente a luz que cai continuamente do céu fornece a uma árvore a energia que crava profundamente na terra as suas poderosas raízes. A árvore está na verdade enraizada no céu.»

Simone Weil, A Pessoa e o Sagrado, p. 53

A frase acima foi surripiada do Delito de Opinião - desconhecia a história de vida autora, mas já andei a pesquisar,  e fiquei surpreendida com a missão de vida desta mulher, que pela sua breve viagem por este mundo escreveu tanto e viveu ainda mais. 

Há uma linha ténue entre a vida e a morte, entre a saúde e a doença, é certo que muitos factores externos ao individuo contribuem para acentuar a diferença entre a saúde e a doença, mas também é certo que depende em muito dos factores internos existentes no individuo, sendo assim a linha que separa as duas não é mais que a junção das duas, constituindo discussão desde há muito, se por um lado existe a ideia de que o individuo é o centro, e que parte dele toda a acção, há quem se apoie que isso depende de onde vem a acção externa que influencia o individuo.

No dia instaurado para chamar a atenção para a importância da nossa saúde mental, podemos concluir que apesar de termos hoje mais meios para sermos mais felizes, para vivermos mais anos com saúde, somos confrontados todos os dias com uma panóplia de informação que nos leva a entrarmos em confronto com os nossos sentimentos e com as nossas acções, se por um lado sentimos vontade de exercer a nossa vontade, por outro somos impedidos de aplicar aquilo que queremos. 

Sem dor física que suporte a evidencia de estar-se doente, a saúde mental é muito difícil de diagnosticar e de ser aceite como doença, quer pelo próprio, quer por aqueles que o rodeiam. Enquanto a dor emocional cresce é possível que também a sensação de vazio se instale e mine toda e qualquer vontade de sair daquele estado, e por vezes é quase impossível voltar a si, sem retorno, num desvio permanente, como uma curva sem fim à vista, no fundo a manutenção da nossa saúde mental deverá fazer-se sempre em boa companhia. Tal  como na visão de Simone Weil, a árvore está enraizada no céu, assim também nós estamos enraizados na sociedade, e como o céu nem sempre é límpido, nem sempre cinzento, azul, escuro ou claro, numa visão simplista o céu demonstra aquilo que somos e o que podemos ser, independentemente dos culpados serem factores externos ou internos.

 

 

 

 

 

Não binário

25
Set22

Tenho uma amiga que é grande apreciadora de suculentas, ontem enviou-me estas fotografias com uma mensagem de bom dia, diz-me ela que a flor dura apenas umas horas, menos que a amor de homem, digo-lhe que esta deve ser amor de mulher, mas depois fiquei na dúvida, deve ser não binário. 

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Isto agora é tudo tão complicado, na ânsia de sermos todos especiais, o mundo tornou-se tão picuinhas, até para percebermos o sentido sexual ou de género precisamos consultar um especialista e um dicionário que nos esclareça as inúmeras siglas que abundam e identificam as variáveis entre género e identidade sexual. Tudo seria mais fácil se fossemos apenas identificados como pessoas. 

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Demissão silenciosa

?

11
Set22

Leio por aí que existe agora uma vaga de trabalhadores que se regem pela chamada demissão silenciosa - nome dado pelos especialistas - mas ao que parece não é uma demissão, então para que lhe deram esse nome¿. E que especialistas são estes? Ao que tudo indica trata-se apenas de cumprir o horário de trabalho e as funções para o quais foram contratados, nada de mais portanto, é somente ser-se cumpridor dos seus deveres e direitos.

Parece assim haver uma admiração generalizada em concretizar tais factos, o que também não entendo, mas assim como tudo isto é agora exposto e questionado  pela comunicação social como se fosse uma revolta dos trabalhadores, também o é em relação a haver avaliações pelo trabalho prestado, onde se avalia o trabalhador por aquilo que ele faz e para além daquilo para o qual contratado -  dando um exemplo disso: refiro-me ao facto de um dia alguém me ter dito que a avaliação de excelente haveria de ser para quem apresentasse resultados que iriam além da sua função, o que também não entendi na altura. Opinião essa que também encontro muitas vezes em estudos de especialistas. Assim chego a concluir que os especialistas são especializados em confusões especializadas sobre as regras, direitos e deveres dos trabalhadores e das entidades empregadoras.

Um contrato de trabalho é isso mesmo -contrato, com cláusulas escritas, sendo que não seja escrito prevale a lei,   as mesmas refletem os  deveres e os direitos de ambas as partes, se alguma das partes exigir mais do que aquilo que lá está acordado deverá ser reformulado - a isso chama-se princípio da equidade. 

Justo será dizer também que há um alheamento  global daquilo que é ser-se cumpridor, ou seja as palavras dos especialistas tornaram-se tão  vulgares que deixaram em aberto  o seu verdadeiro significado, levando a que qualquer um o interprete a seu bel prazer.