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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Meninas depois mulheres

se lá chegarem...

19
Ago21

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Fotografia © Boushra Almutawakel

Hoje é dia mundial da fotografia. 

Eu não me interessa que haja mais moderação sobre o que é ou não é o Direito das mulheres. O que me interessa são os Direitos das  mulheres  por inteiro. Porque já chega de sermos tratadas como seres de segunda.  Não é uma questão de feminismo, ou de outro qualquer rótulo que lhe queiram chamar. É sobretudo uma questão de justiça.

Apesar de sermos geradoras de vida, e portanto também propagadoras da espécie, temos sido ao longo dos tempos relegadas para segundo plano, muitas vezes pelas razões mais estapafúrdias, hoje vemos pelas imagens que nos chegam através de vários meios de comunicação social a selvajaria do que é viver como mulher em determinadas sociedades, quer por crenças religiosas, de poder, ou de pura ignorância. E o mundo assiste ano após ano impávido e sereno, um mundo com muitos homens no poder, sem projectos que levem ao fim destas atrocidades, sem diplomacia nesse sentido, sabendo porém que nascer-se mulher é meio caminho para uma vida de pobreza, violência e  injustiça social. 

 

Jogos Olímpicos Tóquio 2020

mas que na realidade foram em 2021

06
Ago21

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Ana Marcela Cunha, medalha de ouro na maratona aquática, a fotografia é de Jonne Roriz

 

Considero esta fotografia mística, onde o mistério das águas escuras fica desvanecido pelas braçadas audazes de Ana Marcela. Na prova de que outros jogos se jogam abaixo da linha de água. Pudéssemos nós ver para além do que está visto, e veríamos que além e aquém debaixo de nós e acima de nós há vida e desejo de viver. E que tudo poderia ser tão diferente se tivéssemos sempre presente essa perspectiva. 

 

O pensamento cuco

27
Jul21

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Ilustração Alice Rudolf

O pensamento cuco, vive nas cabeça mais distraídas de conhecimento. Sendo assim, os ovos alheios são colocados estrategicamente para serem chocados pelo incauto pensador, depois de eclodirem os cucos são exigentes com o seu cuidador, pedindo vezes sem conta para serem alimentados. À medida que o cuco cresce, torna-se evidente que o ninho se deforma, descaracterizando os vestígios originais. E aí ele voa, esquecendo-se de quem foi para ser quem é. Fica então o ninho vazio de cuco, que agora propaga a espécie, foi-se o outro definhando, já não sabe de onde veio. Cu-cu, cu-cu, cu-cu, canta o cuco sorrateiro esperando outro desprevenido.

Descolaborar

06
Jun21

 

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Ilustração Alberto Pancorbo

Há medida que o tempo passa e a sociedade se transforma noutras dinâmicas adoptam-se novas formas de interpretar as palavras, por vezes distorcendo a realidade, para  o mesmo fim. Se num passado relativamente recente se atribuía a palavra trabalhador a quem vendia a sua força de trabalho, seja ela qual fosse, hoje é frequente ouvirmos falar em colaboradores, dando assim um ar mais levezinho à árdua tarefa de trabalhar, diz-se até que o colaborador é aquele que para além de trabalhar colabora na missão da empresa, num patamar horizontal, como colegas, dando a entender que quando a pessoa colabora é muito mais que um trabalhador. E o que será realmente colaborar neste contexto? Pessoa que trabalha em iguais circunstâncias de iniciativa, dizem. Ora segundo regras definidas um trabalhador por lei está sujeito a um contrato de trabalho, pago por determinado horário e respectiva carga laboral. Mas um colaborador tem de ser mais que isto, tem de dar tudo de si, conseguir fazer escolhas entre trabalho e família, trabalhar fora de horas, nas mais diversas condições, feliz, ter iniciativa, ser dinâmico, estar sempre presente, apresentar resultados, estar informado, ser formado, enfim ser colaborador é a nova dimensão que se dá ao trabalhador que recebe um salário. 

Quando um trabalhador cessa o seu contrato tem direito a subsidio de desemprego, quando um colaborador cessa o seu contrato de trabalho tem direito a subsidio de descolaborador, porque não ficou sem emprego, ficou sem colaboração.  O valor do trabalho, chamado assim, dá uma conotação industrial ao ato laboral, coisa de suor e pouca instrução, no entanto o valor do colaborador chega a parecer de maior importância, tal como dizermos prenda ou presente, encarnado ou vermelho.