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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Árvore de Natal

06
Dez22

Nossa Senhora do Silêncio

Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folhejo-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe?

Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?

 

Livro do Desassossego por Bernardo Soares

 

 

 

 

 

Maremoto 1 de novembro de 1755

Setúbal - Igreja de Jesus Séc. XV

01
Nov22

IMG_20221011_133545.jpgJá estamos em novembro, mas nos primeiros dias de outubro andei pela cidade a turistar durante a minha hora de almoço, no coração da cidade  recolhi algumas imagens para partilhar convosco, mostro-vos aqui as macieiras que crescem agora no largo em frente à Igreja de Jesus, as maçãs são ainda minúsculas, dá-me a sensação que são de diversas variedades, pois umas são mais escuras que outras, não tive muito tempo para aprofundar a questão, mas é uma ideia maravilhosa colocar um pomar num espaço público, não só pela diversidade de árvores que encontramos, mas também pelo aspecto pedagógico da biodiversidade em espaço urbano, contudo dá-me a sensação que na correria dos dias sejam poucas as pessoas a darem conta da existência deste pomar.

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As crianças chegam com as maçãs.
Vêm do sul,
os choupos brancos sabem o seu nome.
Também as gaivotas as conhecem:
aposto que foram elas,
estas ciganas das areias,
quem lhes mostrou o caminho.
Chegam com as maçãs:
as crianças, as abelhas.
 
Poema de Eugénio de Andrade
 

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A Igreja de Jesus situa-se perto da zona ribeirinha, não muito longe alcançamos o Sado,  esta edificação está classificada como monumento nacional e assinala o início do estilo manuelino, a ideia da sua construção situa-se  no final do século XV, vem de um amor proibido entre Justa Rodrigues Pereira, a ama de leite do rei D. Manuel II, e do frade carmelita, D. João Manuel, de quem teve dois filhos. Arrependida por ter quebrado o voto, a freira decidiu edificar um convento neste local para as freiras franciscanas da Ordem de Santa Clara.

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Por toda a cobertura da igreja há um rendilhado esculpido em pedra que contrasta com o azul cetim do céu, a arquitectura e sensibilidade do mestre Diogo de Boitaca, autor também de outros monumentos, tais como como o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e o Mosteiro da Batalha.

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Sabe-se que no dia 1 de novembro de 1755, às 09h30, Setúbal tremeu, e o oceano invadiu a terra,  seguiu-se então o fogo,  nesta manhã de terror morreram mais de 4 mil pessoas, um terço da população da então vila, ficando a vila quase totalmente destruída.


Na transcrição das respostas paroquiais ao inquérito efetuado em 1758 por ordem do Marquês de Pombal, é referido que em Setúbal, “(…) ruas inteiras vierão os edifícios a terra, e naquelles que se conservarão em pé ficarão sempre muito ofendidos, que percizárão serem renovados, e o maior estrago foi nos Templos, e alguns Conventos (…) o mar derrubou as muralhas entrou na vila e pelos campos quase um quarto de légua e meteu dentro das ruas os barcos (…)”.


Na então freguesia de S. Julião, localizada no centro da vila, “(…) a mayor parte das Casas se arazarão, e o resto dellas ficou com grande ruína – três ruas inteiramente se queimarão com o fogo, logo subsequente, ao terramoto, as quais forão rua direita dos mercadores [atuais ruas Serpa Pinto e Dr. Paula Borba] – rua dos caldeireiros [atual Rua Álvaro Castelões], a rua das canastras [atual Rua José António Januário da Silva], (…)”.


Pinho Leal menciona que, em Setúbal, foi “funestíssimo este terramoto, horrorizando todos os seus habitantes, e causando prejuízos incalculáveis. A destruição das casas foi tal que ficaram ruas inteiras entulhadas. No largo da Fonte Nova se reuniu tão grande monte de entulho, que chegava à altura das janelas dos primeiros andares. À falta de habitações, se fizeram barracas em diversos sítios, principalmente junto das muralhas, (…)”, também no Largo de Jesus e nos arredores da vila.


A recuperação da vila de Setúbal foi longa, obrigando a sucessivos anos de reparações.

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Estou defronte deste monumento que foi palco de tamanho horror, ocorre-me que talvez  em dias de tempestade ecoem os gritos das mulheres desesperadas por saber dos filhos, e o sufoco das lágrimas deixadas pelas crianças, e dos homens retorcidos debaixo dos escombros, conta-se que devido à dimensão deste evento natural muitos corpos não foram sepultados, na pressa e na pobreza construiu-se casario em cima dos corpos, anos depois foram encontrados em diversas obras realizadas pela cidade, presume-se que andamos em cima de um cemitério quando andamos por toda a baixa da cidade, não houve tempo para chorar a morte, nem braços suficientes para enterrar tanta gente, nem espaço livre, ficaram quase todos ali, fundindo-se com as casas, as estradas e a cidade.

 

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Entrei na igreja e ouviam-se os cânticos, não reparei se eram vozes femininas que pairavam no ar, aquele espaço revela-se de uma excelente acústica, o som exalado torna-se uniforme e dinâmico, percorrendo o espaço físico daquelas paredes, e o espaço físico dos nossos corpos até aos ossos, conseguindo ousar penetrar naquela fronteira entre o físico e o mental, chegando ao cérebro como uma dádiva una.

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Na colunas de pedra, as gárgulas parecem estar em sentinela, com as bocas escancaradas, ornadas de figuras assustadoras a fazer lembrar figuras humanas revestidas de corpos animalescos, configuradas para não esquecermos que o demónio nunca dorme, que é preciso as pessoas estarem sempre em alerta, pois pode aparecer travestido de coisa especial.

 

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Lá dentro, as colunas esculpidas em pedra rosa da Arrábida, lembram as cordas e os cordões dos barcos e dos sacrifícios dos homens e das mulheres, frias e silenciosas, parecem suster a abobada e as paredes, dando a sensação que tudo ali é fácil de entender, uma busca pela simplicidade depois das agruras da vida, ou como a vida pode ser complicada quando não se entende o seu propósito. 

 

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Na pedra esculpida com arte e esmero vemos o tempo gasto pelo artesão, e a olho nu não sabemos quais as técnicas que foram usadas, nem que ferramentas foram manipuladas, nem quanto tempo gastou, nem quantas mãos por ali passaram, no entanto, aquelas pedras mortas estão vivas perante os que ali passam.

 

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Não me sento, que o tempo é curto, mas imagino quem por ali possa ter estado sentado. Vejo um rosário de avé-marias onde muitas mulheres rezaram fervorosas preces, nos dedos correm as contas dos terços de pobres e ricas, vestidas de vestes negras ou coloridas, as lágrimas afloram nos rostos, porque quase ninguém reza em alegria.

 

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São as promessas que ainda flutuam, quantas e quantas ditas em segredo, as promessas nunca se fazem em voz alta, porque deus ouve a voz interior, é no silêncio que se espera pelo resultado da promessa.

 

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E do amor carnal nasceu este amor divino, na pedra se gravou a história para que fosse esquecido, nunca lembrado nos cânticos que ecoam no tempo e no espaço, um amor esvaído pelo universo, no pó a que nos reduzimos sem querermos.

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Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Poema de Jorge de Sena

 

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Debaixo do sol

28
Set21

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Tenho em  mim o cheiro dos dias de nevoeiro na praia, do cheiro da areia molhada, da maresia escondida. Recordo que quando o sol ultrapassa a nebulosidade, e os seus raios se encontram com a areia, o cheiro intensifica-se até o calor se instalar por completo, depois acabou, começa então o sabor a sal no ar. Os olhos habituam-se ao intenso clarear, à descoberta daquilo que havia estado escondido. No  bote o homem sabe ao que vai, regressa da calada da noite, trazendo a madrugada consigo, fumando um último cigarro, aproveitando a solidão que lhe resta,  pelo ar ecoam as sirenes dos navios a entrar e a sair da barra.  

 

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