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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Desígnios

Árvore de Natal

08
Dez22

Já aqui disse que gosto de dias de tempestade, gosto de apreciar a Natureza na sua suprema vontade, a ideia de que somos apenas marionetas neste universo manifesta-se no pouco que valemos na sua vontade. O facto de não respeitarmos  - e de ainda não admitirmos - que vivemos em cima de um sistema muito inteligente e que por ele somos controlados, faz-nos ainda mais vulneráveis aos seus desígnios.

 

– Menino, vem para dentro,
olha a chuva lá na serra,
olha como vem o vento!

– Ah, como a chuva é bonita
e como o vento é valente!

– Não sejas doido, menino,
esse vento te carrega,
essa chuva te derrete!

– Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!

E enquanto o vento soprava
e enquanto a chuva caía,
que nem um pinto molhado,
teimoso como ele só:

– Gosto de chuva com vento,
gosto de vento com chuva!

 

Poema de Henriqueta Lisboa

 

Marear

20
Abr22

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De manhã são de terra
as palavras que trago sobre a língua.
Sabem a trigo
ao sangue dos morangos
ao caule das papoilas.
Dizem coisas morenas e germinam.
São de terra. As palavras.
 

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À tarde são de vento
e flutuam na seda das bandeiras
e deslizam na solidão das águias
e adejam no limiar dos plátanos.
Desabridas desatam véus e medos
e porque são de vento
constroem catedrais e tecem barcos.
Fazem bater janelas do lado do poente
por onde espreita
a ponta de marfim da lua nova.
Depois são música nos teus cabelos de harpa
E desfloram lilases.
 

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Mas à noite são água.
As palavras são água.
 

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Procuram os teus olhos enfeitados de estrelas
e salpicam safiras e matizes
no teu corpo de fonte.
Dizem regato e cantam.
 

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São cântaros no poial da entrada
onde bebem as tuas mãos vagabundas.
 

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Beijo a beijo
pus pérolas de chuva nos teus ombros.
E as palavras escorrem sendo água
na cachoeira azul-escura da noite.
Embalam sendo lago
Gestos caídos da margem
e vogam na fluidez do sono.
 

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As palavras da noite, gota a gota
Orvalhando o silêncio
(redondo, o húmido coração do silêncio).
E devagar, na espuma do desejo
Acordam naus submersas. As palavras.
 

 

E correm sendo rio
na promessa de serem amanhã
de novo terra. E trigo.
 
Mas agora são mar.
 
Vem marear comigo.
 
 
Poema de Rosa Lobato de Faria

Há novidades!

Chegaram hoje as andorinhas.

28
Fev21

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Hoje pela manhã vi que as andorinhas já tinham chegado, com alegria esvoaçavam de volta do ninho, fico sempre encantada ao descobrir que estes pequenos viajantes de longo curso voltaram. Não somente a visão, mas também a mensagem de resiliência que é necessária para empreender tal viagem. Tenho procurado em tudo o que me rodeia encontrar a chave para ser mais resiliente de forma serena, sem questionar muito, relativizando as minhas fragilidades, tal como o faço com os outros. 

É-me mais fácil compreender os limites dos que me rodeiam, do que os meus, talvez porque exijo demais de mim, como se fosse possível estar constantemente a marcar o passo para indicar o caminho. 

E deixo-vos uma fotografia,  onde ao longe vemos a Serra da Arrábida, e as suas serras circundantes, o Vale dos Barris, com um tsunami de nuvens, mais uma vez a Natureza a surpreendermo-nos, no último dia de Fevereiro. Boa semana.