Daqui até ao Natal -16

mais importante que ter uma memória é ter uma mesa
mais importante que já ter amado um dia é ter uma mesa sólida
uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor não meter os pés pelas mãos
mas mais importante é ter uma mesa
porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia
os que ainda não caíram de vez
Ana Martins Marques
Dou por mim a pensar se reconheceria as vozes que outrora me chamaram, ou até os rostos, é inevitável a perda da memória à medida que o tempo nos afasta das pessoas vividas, então de repente ao virar de uma esquina, lá está um corpo parecido, vestimenta e corte de cabelo idêntico, aquela pele fininha e coberta de manchas castanhas da idade, e fico ali parada, a disfarçar que estou a olhar um pormenor qualquer, remexo a mala e ajeito os óculos de sol, dou novamente uns passos e olho para trás, um pensamento idiota vem-me à mente: e se eu lhe pedisse para lhe dar um abraço será que me deixava fazê-lo? Depressa se desfez o pensamento, começo novamente a andar, não olho mais para trás, mas arrependo-me, de não ter tido a ousadia suficiente.

Eu quando sinto saudades daqueles que já cá não estão, vou visitar os sítios que me falam deles, pode ser uma rua, uma praia, um barco, um conjunto de azulejos...fico ali a olhar e a imaginar o que poderiam ter visto e o que sentiram, a tentar saber quais foram os pormenores que mais lhes chamaram a atenção, é como se ainda houvesse aquela energia - conhecida - na brisa que passa levemente, ou no calor do sol que me aconchega. E é só.