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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O grande problema do ano lectivo anterior e o deste novo ano

30
Ago19

Os livros do ano anterior foram entregues a estrear e muitos foram devolvidos em condições lastimosas. Ninguém sabia que não se podia escrever nos livros, nem sublinhar, nem rasgar capas,  parece que ninguém avisou que os livros eram emprestados, atenção: que emprestado não é dado. Pergunta simples: quando vão a uma biblioteca, alguém vos diz que não devem sublinhar ou escrever no livro que têm de devolver? E se escreverem e sublinharem esperam que alguém o vá apagar por vocês? E ainda assim considerariam que lhes estavam a fazer um favor? Pois, tem acontecido muito. 

 

Assim, na continuação deste novo modelo de partilha, os manuais escolares do 7º ao 12º deste ano deveriam de ser todos a estrear, mas estão a ser entregues livros usados. Que calamidade! Poderíamos ter aproveitado os velhos para fazermos uma fogueira de boas-vindas, e com uma música à mistura teríamos um começo em grande estilo, mas não, alguém se lembrou de reutilizar os que estavam no banco do SASE, este é um grande problema, no entanto está em vias de deixar de o ser, pois já há quem ensine como e onde  reclamar para obter o seu livro imaculado, com cheiro a novo. 

 

O grande problema não são portanto: a falta de condições nas escolas, tais como: demasiado frio no Inverno, chover nas salas de aula... a falta de pessoal auxiliar, salas demasiado cheias, escola inclusiva?, o maior problema é mesmo os livros usados, esse sim o enorme motivo de tanta agitação e de queixas no livro amarelo e azul às bolinhas cor de rosa. São massas com queijo mozzarella e natas à mistura. 

Uma reflexão no Dia do Trabalhador

01
Mai19

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Ilustração Giuseppe Pelliizza

 

Antigamente, na generalidade, os trabalhadores laboravam em fábricas, na pesca, ou na agricultura, andavam rotos, sujos e descalços porque eram mal pagos e  mal vistos. Eram pessoas que não sabiam de nada, ranhosos, não letrados. Depois vieram os trabalhos de escritório, trabalhos de responsabilidade, melhor pagos, as pessoas passaram a vestir-se melhor, e a distanciarem-se dos rotos e sujos. Apareceram os chefes e os directores e os lambe botas. E o mundo melhorou a olhos vistos. E as pessoas esqueceram-se das lutas laborais e apenas conhecem os direitos que agora têm. 

 

Os anos passaram e agora temos um grande leque de profissões, umas muito bem pagas, vistas como extremamente importante pela sociedade, outras nem tanto, existem ainda outras que são  descartáveis. A outras foram dado termos como: colaboradores. A luta por melhores direitos laborais passou a ser mal vista pelos próprios trabalhadores. Entrar a horas no emprego e sair sempre depois da hora laboral é visto como um exemplo divinal de colaborador, mesmo que o querubim tenha andado na ronha durante o dia. Portanto a aparência é da maior importância. A forma como nos vestimos, falamos e nos apresentamos no nosso local de trabalho faz de nós um modelo, bom ou mau.  E tal como no princípio das lutas continuam a haver os chefes os directores e os lambe botas. 

 

O trabalho é uma alavanca para a subida na estratificação social, porque nele está contida não só a valorização social de cada pessoa que o concretiza, como a quantificação monetária que faz com que seja possível essa subida. Tal como um bolo de camadas em que a última é a melhor e a primeira é a que está esborrachada. Se está esborrachada não presta para nada. Ninguém quer ser a primeira camada que está em baixo. A primeira é a mais mal paga: imagine-se, ninguém precisa que se limpem sanitários? É verdade que todos cagam, mas é dispensável um ordenado digno, portanto ordenado de merda para trabalho de merda, essas pessoas que se sujeitam a este tipo de trabalho provavelmente não sabem fazer mais nada? É o que pensa a generalidade das pessoas. Não estudaram? Isto é o que deixa transparecer o preconceito social. E se todos tivessem estudado muito? Será que o trabalho de limpar a merda dos outros seria considerado prestigiante e mais bem pago? Ou andaríamos todos a boiar na merda?