Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Caminhadas

P.N.A.

19
Fev22

IMG_20220213_142351.jpg

Por estradas de montanha
vou: os três burricos que sou.
Será que alguém me acompanha?

IMG_20220213_120705.jpg


Também não sei se é uma ida
ao inverso: se regresso.
Muito é o nada nesta vida.

IMG_20220213_121303.jpg


E, dos três, que eram eu mesmo
ora pois, morreram dois;
fiquei só, andando a esmo.

IMG_20220213_142452.jpg


Mortos, mas, vindo comigo
a pesar. E carregar
a ambos é o meu castigo?

IMG_20220213_122017.jpg


Pois a estrada por onde eu ia
findou. Agora, onde estou?

Já cheguei, e não sabia?

IMG_20220213_121357.jpg


Três vêzes terei chegado
eu – o só, que não morreu
e um morto eu de cada lado.

IMG_20220213_124515.jpg


Sendo bem isso, ou então
será: morto o que vivo está.
E os vivos, que longe vão?

IMG_20220213_124358.jpg

Poema de Guimarães Rosa

Caminhada pelo Parque Natural da Arrábida

Entrelaçados

13
Out20

otoño_Valentí Gubianas.jpg

 

Ilustração Valentí Gubianas

 

Estas folhas que agora caem são diferentes, nasceram enquanto festejávamos a Primavera confinados dentro de casa, na altura em que se ouviam palmas à janela e se punham arco-íris à janela. Talvez eu vá guardar algumas destas folhas dentro de um livro, irei elegê-las como marcadores de páginas e de tempo.

Hoje de manhã caminhei em frente ao Sol, e num passo vagaroso observei o resto do orvalho que ainda havia nas ervas bravias, a brisa bem fresca da manhã lembrou-me que o Outono está agora a querer impor-se, e eu não resisto, já visto um casaco quando saio de casa. E sabe tão bem sermos aconchegados por um tecido que nos afaga à medida em que caminhamos sentido o friozinho na cara.  

O Outono brinca connosco, despindo as árvores, mudando as cores à paisagem, soprando ventos ariscos entre os ramos seminus e ressequidos. Dá-nos o sono de presente, abranda o nosso cérebro, obriga-nos a pensar de um modo reflexivo quando olhamos as suas cores tranquilas. É o tempo de abrimos as nossas gavetas e de escolhermos as mantas que nos vão acompanhar nos próximos meses.

 

 

Diário dos meus pensamentos (44)

02
Mai20

arvoredo.jpg

 

 

Eu não estou cansada destes dias, apenas não quero voltar a viver da forma como vivia antes deles. Não quero, já não me revejo, nem ambiciono. E isto é um desejo muito forte, que tenho de trabalhá-lo e de batalhar bastante para conseguir alcançá-lo. É um caminho que estou a percorrer há alguns anos, em que apesar de demonstrar ser essa a minha vontade, tenho tido sempre obstáculos que não consigo ultrapassar, alguns deles sei que existem, mas são de difícil comprovação. Redes invisíveis se propagam ao nosso redor, são obscuras, dúbias, que nos podem levar até a duvidarmos de nós próprios, são quase maquiavélicas, (não sei se não hei-de retirar o quase). Por vezes há a sensação que a força depende apenas de nós,  é mentira, depende também, e muito, do ambiente ao nosso redor. Da forma como os outros nos vêm como alvos a abater, ou de como somos coisas inúteis, apesar de demonstrarmos inúmeras vezes o contrário. Neste tempo, tenho avaliado a causa do meu descontentamento e cheguei à verificação que isso se deve em grande parte ao ambiente em que estou inserida, não por uma imposição definitiva, mas antes num dever de o frequentar todos os dias. Não sei ser indiferente. Quero sair desta vida fazendo a diferença, sentir-me útil a maior parte  dos dias,  e se esse espaço me está a ser vedado tenho de ir em busca dele num outro lado.

 

arvoredo1.jpg

 

 

A reflexão pode ser dolorosa, a acção ainda mais, mexer naquilo que queremos acabar, exige fazer um desprendimento emocional com todos os sentimentos que adquirimos ao longo dos anos, talvez seja como fazer uma viagem deixando a bagagem no ponto de começo, neste caso recomeço. Qualquer dia é um dia bom, não precisa ser quarta, nem domingo, pode ser um outro dia qualquer, o que me importa verdadeiramente é que esse dia chegue depressa. 

 

arvoredo2.jpg

 

 

 

As ilustrações são de  Martina Heiduczek