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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Desígnios

Árvore de Natal

08
Dez22

Já aqui disse que gosto de dias de tempestade, gosto de apreciar a Natureza na sua suprema vontade, a ideia de que somos apenas marionetas neste universo manifesta-se no pouco que valemos na sua vontade. O facto de não respeitarmos  - e de ainda não admitirmos - que vivemos em cima de um sistema muito inteligente e que por ele somos controlados, faz-nos ainda mais vulneráveis aos seus desígnios.

 

– Menino, vem para dentro,
olha a chuva lá na serra,
olha como vem o vento!

– Ah, como a chuva é bonita
e como o vento é valente!

– Não sejas doido, menino,
esse vento te carrega,
essa chuva te derrete!

– Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!

E enquanto o vento soprava
e enquanto a chuva caía,
que nem um pinto molhado,
teimoso como ele só:

– Gosto de chuva com vento,
gosto de vento com chuva!

 

Poema de Henriqueta Lisboa

 

Paz

Árvore de Natal

07
Dez22

paz.jpg 

Ilustração Jane Waterous

 

Onde encontro a paz? ...
Pergunto-me a todo instante.
Procurei-a há tempos idos
Num lugarejo distante...
Procurei-a num largo anfiteatro
E ainda não achei...
Procurei-a, desta vez, num circo
E também não encontrei...
Então pensei: Está no lar!...
Mas também lá não estava.
E pus-me novamente a buscá-la
Nos canteiros floridos, no pôr-do-sol,
Em todas as maravilhas do Universo
E nada consegui encontrar...
Um dia, embaraçada com tanta busca,
Perdi-me dentro de mim
E... Qual não foi a minha surpresa!
Lá estava ela...
A sorrir.

 

Poema Amélia Rodrigues

Árvore de Natal

06
Dez22

Nossa Senhora do Silêncio

Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folhejo-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe?

Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?

 

Livro do Desassossego por Bernardo Soares

 

 

 

 

 

Arrebol

Árvore de Natal

05
Dez22

dádiva.jpg Ilustração Karl Jóhann 

 

Deram-me um saco cheio de laranjas e clementinas pequenininhas, quando chegaram cá em casa ainda continham nelas as bagas gordas de chuva que caíram durante a noite, num ápice devorei uma clementina minúscula, o sabor agridoce escorreu devagar pela garganta. No fim engoli um sol.

 

Perfumada laranjeira,

Linda assim dessa maneira,

Sorrindo à luz do arrebol,

Toda em flores, branca toda

– Parece a noiva do Sol

Preparada para a boda.

E esposa do Sol, que a adora,

Com que cuidados divinos

Curva ela os ramos, agora!

E entre as folhas abrigados,

Seus filhos, frutos dourados,

Parecem sois pequeninos.

 

Poema de Júlia Lopes de Almeida