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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Conversas da escola - As infiltradoras

Maio 12, 2018

Alice Alfazema

Por estes dias anda muita malta a infiltrar-se na fila do bar, geralmente são os grandotes. Vêm de fininho, assim de ladinho, e pumbas já está, rente ao balcão.

- Infiltraste-te na fila?

- Quem eu?! Acha?!

- Sim.

- Eu já estava aqui!

- Então porque estás a levantar as sobrancelhas? É o primeiro sinal de quem mente! É involuntário, não consegues controlar!

Ela tenta que as sobrancelhas baixem, mas parece que não resulta.

Outra infiltradora faz o pedido.

- E tu também! Chegam de fininho e zás!

- Não, eu já estava aqui. 

Enquanto responde franze a cara de modo a que as sobrancelhas fiquem juntas e para baixo.

 

 

Alice Alfazema

 

Chapéuzinho p´ra lá de vermelho

Novembro 13, 2013

Alice Alfazema

 



Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e... (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, - natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).

Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: "Onde vais, linda menina?" Respondeu Chapeuzinho Vermelho: "Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde".

Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: "Psychopathology Of Everiday Life", The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.

Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrénica, débil mental e paranóica pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em "Sexual Behavior in the Human Female". W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranquila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

 

 Millôr Fernandes,  Lições de Um Ignorante, 1967, pág. 31

 

 

Alice Alfazema

Como recuperar o sorriso e a boa disposição

Fevereiro 19, 2013

Alice Alfazema

 

Pintura de Suellen Ross 


No século passado, foi feita uma experiência com pessoas, para avaliar a expressão do rosto e a sua influência na emoção. O autor desta experiência foi Strack entre outros.

 

Pediram a um grupo de sujeitos que avaliassem os desenhos animados que iriam ver. As pessoas foram divididas em dois grupos.  A um grupo foi pedido que colocasse um lápis atravessado entre os dentes, ao outro grupo que segurasse o lápis com os lábios.A colocação do lápis atravessado entre os dentes causa geralmente uma expressão sorridente, enquanto que a colocação nos lábios origina uma expressão carrancuda.

 

A conclusão foi: os sujeitos com o lápis preso entre os dentes avaliaram os desenhos animados como mais engraçados  do que os sujeitos com o lápis atravessado nos lábios. Ficou então concluído que a expressão facial é um componente importante da emoção.

 

Se está triste e não sabe como há-de recuperar o seu sorriso e a sua boa disposição experimente!

 

Alice Alfazema


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