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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Flores

19.10.21, Alice Alfazema
Ilustração Anne Cotterill É surpreendente como vivem as flores através duma pintura, deixando pela mão de quem as pintou o seu perfume em modo infinito, colocadas na tela são eternizadas pelo momento, ficaram junto delas e assim capturadas: a luz daquele dia, a melancolia daquela tarde e a finitude de um pensamento.    Há sempre um anjo que velaSob a forma de um gestoDe uma palavraDe um soproDe um acordeDe um abraçoDe um voo súbitoDe uma canção.Ao alcance do que nem pedimos.   (...)

Somos duas vezes a mesma coisa

16.09.21, Alice Alfazema
Ilustração Gabriella Barouch  Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido De afectos, tenha a fria liberdade Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses.   Poema de Ricardo Reis

Hibisco

06.09.21, Alice Alfazema
Há flores que se comem como se fossem frutas, numa comunhão entre os olhos, a boca, o jardim. Hibiscos coloridos, caprichosos, derramam no prato a sua beleza, passageira como um relâmpago, e ao morder um hibisco nos transformamos em poesia.   Poema de Roseana Murray

Eterna presença

18.08.21, Alice Alfazema
Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, que as dimensões do infinito não me perturbam. (O infinito! Essa incomensurável distância de meio metro que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) O que me perturba é que o todo possa caber na parte, que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim, de mim, pobre de mim, que sou parte do todo. (...)

Garganta

02.08.21, Alice Alfazema
  Um dia, enfiou as mãos na boca e puxou a garganta para fora.Passou o dia a desatar nós. Caiam-lhe aos pés, as dores que ali se cravaram.Servindo-se das unhas, raspou o calado, que separou cuidadosamente, da mesclade sangue e lágrimas que lhe escorria pelos cotovelos. Depois, voltou a colocar agarganta no sítio e atirou com o que dali arrancou para cima da mesa. Houve os queperderam a fome, outros a sede, outros ainda, o sono. Depois disso nunca mais falou.Esta é a história de (...)