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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

ūüíč

16.11.19, Alice Alfazema
¬† √†s vezes basta uma palavra uma flor ou apenas uma p√©tala um sorriso o voo rasante das gaivotas n√£o sentir e n√£o me importar uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela o cheiro a mar uma pinta na folha o frio da pedra e o quente de uma respira√ß√£o o fumegar do caf√© importar-me com o teu sentir o l√°pis de cor amarela, para pintar o sol aqueles teus fios de m√ļsica que fazem estremecer uma impress√£o, mesmo que vaga, de felicidade o ondulado negro a lembran√ßa sempre (...)

Sophia - A Eterna Menina do Mar

06.11.19, Alice Alfazema
¬† ¬† Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuar√° o jardim, o c√©u e o mar, E como hoje igualmente h√£o-de bailar As quatro esta√ß√Ķes √† minha porta. ¬† ¬† Outros em Abril passar√£o no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haver√° longos poentes sobre o mar, Outros amar√£o as coisas que eu amei. ¬† ¬† ¬† ¬† Ser√° o mesmo brilho, a mesma festa, Ser√° o mesmo jardim √† minha porta, E os cabelos doirados da floresta, Como se eu n√£o estivesse morta. ¬† ¬† ¬† Poema Sophia de (...)

√ötero

10.09.19, Alice Alfazema
¬† Ilustra√ß√£o¬†Sarah Jarrett¬† ¬† discurso vazio e pretensioso lambuzado em muros santificados repetidas e repetidas vezes at√© que quase todo mundo acredite que √© vi√°vel. ¬† afeta√ß√Ķes dos s√©culos aceitas como Arte. ¬† cuidado com os livros did√°tico, cuidado com as bibliotecas, cuidado com as galerias, cuidado com o pai e o professor. cuidado com a m√£e. ¬† nascemos numa civiliza√ß√£o atordoada por uma mediocridade esmagadora. ¬† o que est√° diante de n√≥s √© um truque, uma ilus√£ (...)

Adivinha

07.09.19, Alice Alfazema
    - Que faremos nós… agora a sós? - Daremos abraços. - Que nem palhaços! - Que faremos os dois… agora e depois? - Troquemos carinhos. - Mas sem espinhos! - Trata-me por tu… já que estou nu. - E por você? - Logo se vê. -Trata-me por tua… já que estou nua. - Serás minha?! - … Adivinha!       Poema de António Galrinho

Não  tem obrigatoriamente de dizer tudo

17.08.19, Alice Alfazema
¬† ¬† √Äs vezes, um verso transforma o modo como¬† se olha para o mundo; as coisas revelam-se¬† naquilo que imagina√ß√£o alguma a sup√īs; e¬† o centro desloca-se de onde estava, desde¬† a origem, obrigando o pensamento a rodar¬† noutra direc√ß√£o. ¬† ¬† ¬† O poema, no entanto, n√£o¬† tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua¬† ess√™ncia reside no fragmento de um absoluto¬† que algum deus levou consigo. Olho para¬† esse vest√≠gio da totalidade sem ver mais¬† do que isso ‚ÄĒ o (...)

Mansa hipocrisia

13.08.19, Alice Alfazema
¬† ¬† N√£o me pe√ßam raz√Ķes, que n√£o as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que raz√Ķes s√£o palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos... N√£o me pe√ßam raz√Ķes por que se entenda A for√ßa de mar√© que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: N√£o fiz a lei e o mundo n√£o aceito. N√£o me pe√ßam raz√Ķes, ou que as desculpe, Deste modo de amar e destruir: Quando a noite √© de mais √© que amanhece A cor de primavera que h√°-de vir. ¬† ¬† ¬† Jos√© (...)

Trasparência

27.07.19, Alice Alfazema
¬† Ilustra√ß√£o¬†Jeffrey T. Larson ¬† ¬† Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transpar√™ncia No fundo do mar da nossa alma n√£o h√° corais nem b√ļzios Mas sufocado sonho E n√£o sabemos bem que coisa s√£o os sonhos Condutores silenciosos canto surdo Que um dia subitamente emergem No grande p√°tio liso dos desastres ¬† Sophia de Mello Breyner Andresen ¬†

A olhar o céu

20.07.19, Alice Alfazema
Por vezes os nossos pensamentos s√£o como as nuvens, s√£o muitos, s√£o dispersos, s√£o pesados, s√£o flocos levezinhos e distantes uns dos outros, s√£o √ļnicos. √Ä medida que o tempo passa o cen√°rio muda, quer seja porque est√° vento, ou muito calor, ou √© Inverno, ou Primavera. ¬† ¬† Observar a Natureza √© das melhores coisas da nossa vida, quem nunca experimentou deveria¬†de o fazer, pois s√£o tantos os pormenores, tantas as cores, tantos os cheiros e tantas as emo√ß√Ķes que recebemos (...)

Orla

26.06.19, Alice Alfazema
Desde a orla do mar Onde tudo come√ßou intacto no primeiro dia de mim Desde a orla do mar Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas Enquanto o c√©u cego de luz bebia o √Ęngulo do seu voo Onde amei com √™xtase a cor o peso e a forma necess√°ria das conchas Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas E nadei de olhos abertos na transpar√™ncia das √°guas Para reconhecer a an√©mona a rocha o b√ļzio a medusa Para fundar no sal e na pedra o eixo recto Da constru√ß√£o (...)

#diariodagratidao 31-05-2019

31.05.19, Alice Alfazema
  Ilustração Charlie Bearman   Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir uma parte na (...)