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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Útero

10.09.19, Alice Alfazema
  Ilustração Sarah Jarrett    discurso vazio e pretensioso lambuzado em muros santificados repetidas e repetidas vezes até que quase todo mundo acredite que é viável.   afetações dos séculos aceitas como Arte.   cuidado com os livros didático, cuidado com as bibliotecas, cuidado com as galerias, cuidado com o pai e o professor. cuidado com a mãe.   nascemos numa civilização atordoada por uma mediocridade esmagadora.   o que está diante de nós é um truque, uma ilusã (...)

Adivinha

07.09.19, Alice Alfazema
    - Que faremos nós… agora a sós? - Daremos abraços. - Que nem palhaços! - Que faremos os dois… agora e depois? - Troquemos carinhos. - Mas sem espinhos! - Trata-me por tu… já que estou nu. - E por você? - Logo se vê. -Trata-me por tua… já que estou nua. - Serás minha?! - … Adivinha!       Poema de António Galrinho

Não  tem obrigatoriamente de dizer tudo

17.08.19, Alice Alfazema
    Às vezes, um verso transforma o modo como  se olha para o mundo; as coisas revelam-se  naquilo que imaginação alguma a supôs; e  o centro desloca-se de onde estava, desde  a origem, obrigando o pensamento a rodar  noutra direcção.       O poema, no entanto, não  tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua  essência reside no fragmento de um absoluto  que algum deus levou consigo. Olho para  esse vestígio da totalidade sem ver mais  do que isso — o (...)

Mansa hipocrisia

13.08.19, Alice Alfazema
    Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos... Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não fiz a lei e o mundo não aceito. Não me peçam razões, ou que as desculpe, Deste modo de amar e destruir: Quando a noite é de mais é que amanhece A cor de primavera que há-de vir.       José (...)

Trasparência

27.07.19, Alice Alfazema
  Ilustração Jeffrey T. Larson     Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios Mas sufocado sonho E não sabemos bem que coisa são os sonhos Condutores silenciosos canto surdo Que um dia subitamente emergem No grande pátio liso dos desastres   Sophia de Mello Breyner Andresen  

A olhar o céu

20.07.19, Alice Alfazema
Por vezes os nossos pensamentos são como as nuvens, são muitos, são dispersos, são pesados, são flocos levezinhos e distantes uns dos outros, são únicos. À medida que o tempo passa o cenário muda, quer seja porque está vento, ou muito calor, ou é Inverno, ou Primavera.     Observar a Natureza é das melhores coisas da nossa vida, quem nunca experimentou deveria de o fazer, pois são tantos os pormenores, tantas as cores, tantos os cheiros e tantas as emoções que recebemos (...)

Orla

26.06.19, Alice Alfazema
Desde a orla do mar Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim Desde a orla do mar Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu voo Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas E nadei de olhos abertos na transparência das águas Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa Para fundar no sal e na pedra o eixo recto Da construção (...)

#diariodagratidao 31-05-2019

31.05.19, Alice Alfazema
  Ilustração Charlie Bearman   Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir uma parte na (...)

Pele negra

30.03.19, Alice Alfazema
Você pode me riscar da História com mentiras lançadas ao ar. Pode me jogar contra o chão de terra, mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar. Minha presença o incomoda? Por que meu brilho o intimida? Porque eu caminho como quem possui riquezas dignas do grego Midas. Como a lua e como o sol no céu, com a certeza da onda no mar, como a esperança emergindo na desgraça, assim eu vou me levantar.         Você não queria me ver quebrada? Cabeça curvada e olhos para o chão? Om (...)

Um final de dia

27.03.19, Alice Alfazema
  Hoje no final do meu dia de trabalho pus-me a ver a Primavera debaixo desta árvore, à minha direita o Sol já ia baixo, numa corrida para apanhar a serra. Fico sempre maravilhada com a Mãe Natureza, para mim a única religião. Tirei o telemóvel e fotografei a árvore, enquanto o fazia uma colega passou de carro e buzinou-me. A malta gosta de se meter comigo.      As árvores crescem sós. E a sós florescem.   Começam por ser nada. Pouco a pouco se levantam do chão, se (...)