Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Presença

06.06.19, Alice Alfazema
  Fotografia Artur Pastor   Há no mar uma presença que me chama, são vozes vindas de longe, de muito longe, onde a minha alma liquida quereria chegar. Não sei localizá-las, apenas as sinto. Estarão brincando nas ondas? Ou em águas profundas? No meio de tempestades? Ou em mares cristalinos? Sinto o sal na boca e nos dentes, incham-me os lábios da salmoura. Fico assim durante horas. É como se o mar falasse por mim.   Aquelas águas escuras fazem-me sonhar com mil mundos ali (...)

#diariodagratidao 03-04-2019

03.04.19, Alice Alfazema
  Hoje houve uma frase que o meu marido disse ao pai que me emocionou, já a tinha ouvido, mas hoje registei-a de outra forma, olhei para os dois juntos, tenho feito isto muitas vezes, pai e filho, da mesma altura, com o mesmo andar gingão, o filho com a mão sobre os ombros do pai. Olhei para o sol que se punha por detrás do edifício, para o caramanchão de hera verdejante, para as rosas e malmequeres amarelos, há alfazema à porta, algumas árvores floridas. Aquele é um lugar (...)

#diariodagratidao 29-01-2019

29.01.19, Alice Alfazema
  Ilustração Anna Burighel   Hoje fui ao posto médico para uma consulta. Enquanto estava à espera que me chamassem fui observando as pessoas à minha volta. Mulheres, mães com filhos, filhos com pais, homens e um com um bebé. Entrou empurrando o carrinho com o ovinho, o  bebé estava tapado com um cobertor cor-de-rosa. Sentou-se e destapou o bebé. Assim meio desajeitado. A criança devia de estar a dormir. Encanta-me ver os homens assim a cuidarem dos filhos, meio (...)

Conversas da escola - O quarto filho

03.11.18, Alice Alfazema
Rapaz já grandote:   - Hoje a fila está muito lenta, não há despacho... - Temos falta de pessoal. - A minha mãe é que devia de vir para aqui. - Então ela que venha. - Mas ela já trabalha. - E faz o quê? - Trabalha numa loja, ela já não tem paciência para aturar miúdos. - Pois... - Com três filhos... - Eh lá! - Tem de aturar três filhos e o meu pai!

Conversas da escola - Grande Pai!

10.10.18, Alice Alfazema
Eram exactamente três e meia da tarde, numa tarde de Outubro, com uma brisa fresquinha no ar, a professora deu feriado à malta do 5º ano, anda alegria no ar, gritinhos, boa, boa!   - Onde é que está a senhora da papelaria? - Está a lavar as casas de banho. - Mas eu tenho fome! Eu estou cheio de fome! Tenho fome. - Se tivesses em aula não podias estar a comer. - Mas eu tenho muita fome.   A malta só pode comer depois de comprar a senha na papelaria. Então, o menino saca do (...)

Micro contos - Na fila do bacalhau

20.06.16, Alice Alfazema
No supermercado o pai andava às compras com os seus rebentos. Um no carrinho, ainda de chucha, o outro já grandinho entretinha-se a baralhar as placas que estavam na padaria, com o nome e o preço do pão. O pai sempre atarefado ao telemóvel, a criança pequena a gritar levemente, o pai ao telemóvel, a criança grande a andar de um lado para outro. O pai ao telemóvel. A criança pequena chateada com tudo aquilo. Todos na fila do pão. Todos na fila do bacalhau. O pai ao telemóvel.   

Dia do Pai

19.03.16, Alice Alfazema
Ilustração  Michael Emberly       As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis sobre um fundo de manchas já cor de terra — como são belas as tuas mãos — pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram na nobre cólera dos justos... Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida. E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta, uma luz parece vir de dentro delas... Virá dessa chama que pouco a (...)

Pessoas

23.11.12, Alice Alfazema
  Ao longe o menino caminha. Vem  devagarinho. O mar bate-lhe nos pezinhos. A sua mão pequena sente o calor daquela mão grande, que lhe conduz, que lhe ampara o andar, que lhe protege. E ele feliz, vai devagarinho pela orla da praia, cheia de gente.      Poderemos pensar que estes momentos se apagam com o tempo, não é verdade. Tudo aquilo que fazemos perdura em nós e nos outros. (...)