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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Quando as folhas caem

28
Set25

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Aprecio especialmente gente que é resiliente, que não se resume apenas a ser um corpo, que acredita, mesmo na dor, que é possível, e mesmo, tal como uma árvore durante um temporal, tendo sido levado ao limite continua para além dele, mergulhando no seu pequeno espaço cinzento, enfrentando os medos, as crenças e os traumas, rasgando barreiras invisíveis feitas de momentos de solidão que ninguém conhece.

 

Como um vento na floresta,
Minha emoção não tem fim.
Nada sou, nada me resta.
Não sei quem sou para mim.

E como entre os arvoredos
Há grandes sons de folhagem,
Também agito segredos

No fundo da minha imagem.

E o grande ruído do vento
Que as folhas cobrem de som
Despe-me do pensamento:
Sou ninguém, temo ser bom.

Fernando Pessoa, in “Poesias Inéditas” 

 

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As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,

que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga, in “Herbário”

 

Extensão

19
Set25

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Ilustração Cátia Vidinhas 

A nossa casa é como se fosse a palma da nossa mão, só a estendemos a quem queremos e gostamos, e mesmo que esteja suja ou desarrumada é infinitamente nossa. 

Quando a base é boa e a palma daquela mão se vira para cima é concha que nos atrai, qual pequeno tesouro encontrado num pedaço de areia banhada por água salgada.

Que tesouros são estes?, sem qualquer valor monetário, mas que enchem o nosso âmago de energia e vontade de viver os dias com sentimento de coração cheio.

Perguntaram-me, fazendo comparação entre duas pessoas, o que eu pensava de uma, pensei, mas não havia muito por onde comparar, também por desconhecimento, então respondi, não vejo isso assim por comparação, o que eu vejo é a felicidade da outra pessoa que está com ela, e se ele está feliz ou não é daí que retiro a minha conclusão.

Há pessoas que não sabem (que podem), ser felizes?!

15
Set25

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O que a sociedade nos ensina, é que temos de sofrer para merecermos, quer seja ser feliz, ter um amor, um trabalho, qualquer coisa por assim dizer. Vemos em filmes e afins que as coisas boas só aparecem depois do sofrimento, todas as que enumerei e mais as que houverem. Há em todas as religiões um grande espaço reservado ao sofrimento humano. O sofrimento é tão valorizado que poderá haver um sentido de culpa ou descrédito por nos sentirmos felizes.

E se o amor for mesmo feliz sem haver necessidade de sofrer para que isso aconteça? E se as pessoas nos acolherem bem, sem quererem mais nada em troca? E se a pressão for apenas uma ilusão criada pelo cérebro alimentado pela ilusão das cenas dos outros? 

Há pessoas que têm medo de serem felizes. Será por a felicidade ser demasiado arrebatadora? Ou será pela opinião de terceiros desiludidos com as suas próprias vidas? 

A janela da oportunidade da felicidade é demasiado pequenininha para deixar de espreitar por ela.

A felicidade está reservada aos audazes, aos que se predispõem a quebrar ciclos, situações que viveram ou que foram obrigados a isso. É ser capaz de aceitar a mão e de dá-la. 

A felicidade e o amor não é o um carma, mas o darma.