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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

"Aquele que voa tem de poisar em algum lugar"

13
Out21

chapéu vermelho.jpg

Ilustração Vince Pezzaniti

 

Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.

 

Poema de Ana Hatherly

 

 

 

Folha🍁

🍁

29
Set21

rafal-olbinski.jpg

Ilustração Rafal Olbinski

 

🍁
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
🍁
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?
🍁
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
🍁
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...
🍁
Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
🍁
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
 
 
Poema de Cecília Meireles

Outono

2021

22
Set21

outono.png

Ilustração 제딧

Curiosamente começa hoje o Outono no hemisfério norte, e está lua cheia, todos os anos repetimos este ritual, não me lembro se será sempre com a lua cheia, como se fosse algo novo, e sem dúvida que o é. 

Para mim faz mais sentido começar agora um novo ano, é agora que me despeço do ano velho, olhando para a Natureza vejo como ela se despede das folhas velhas, como se refazem  os cogumelos, amadurecem as romãs e as castanhas, vejo que as andorinhas já se foram sem que eu desse por isso, deixaram de voar por entre as grandes árvores. 

Oiço o vento com um outro timbre, as folham que esvoaçam, ainda agarradas aos ramos, deixaram de ser maleáveis, são agora secas e quebradiças, estalando a cada sopro. São sons de outono. Os pássaros cantam mais tarde pela manhã, há uma redução na diversidade dos chilreares que oiço através da janela, sei que agora se dirigem para outras bandas, desejo-lhes boa viagem. 

No outono a vida desacelera, apesar de termos deixado para trás os meses de férias,  acontece querermos dormir mais aconchegados, comermos sopa quente, voltarmos à chávena de chá antes de dormir.  As cores misturaram-se e tornaram-se numa palete vibrante de castanhos e vermelhos mansos, lembrando que é hora de acalentar o corpo.

 

 

 

Luxo

13
Nov20

vestido verde.jpg

Ilustração Edward B. Gordon

 

A mulher do vestido verde espera, põe as mãos na cintura para clarear os pensamentos, como se aquela linha que separa a base do resto tivesse a capacidade de lhe levar para outros patamares. É um vício pensar assim. Enquanto se apoia nas suas próprias mãos, não sente necessidade de ninguém. 

Podia olhar o horizonte infinitamente e ficar hipnotizada pela luz opaca daquele pensamento que lhe invade agora a memória, é um luxo experimentar este transe. 

Retira as mãos da cintura, o momento acabou.