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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Fulgir

Árvore de Natal

12
Dez22

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No mesmo instante em que eu, aqui e agora,

Limpo o suor e fujo ao Sol ardente,

Outros, outros como eu, além e agora,

Estremecem de frio e em roupas se agasalham.

Enquanto o Sol assoma, aqui, no horizonte,

E as aves cantam e as flores em cores se exaltam,

Além, no mesmo instante, o mesmo Sol se esconde,

As aves emudecem e as flores cerram as pétalas.

Enquanto eu me levanto e aqui começo o dia,

Outros, no mesmo instante, exactamente o acabam.

Eu trabalho, eles dormem; eu durmo, eles trabalham.

Sempre no mesmo instante.

Aqui é Primavera. Além é Verão.

Mais além é Outono. Além, Inverno.

E nos relógios igualmente certos,

Aqui e agora,

O meu marca meio-dia e o de além meia-noite.

Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.

Busco as constelações, balbucio os seus nomes.

Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.

São sempre as mesmas, aqui, agora e sempre.

Mas além, mais além, o céu é outro,

Outras são as estrelas, reunidas

Noutras constelações.

Eu nunca vi as deles;

Eles,

Nunca viram as minhas.

A Natureza separa-nos.

E as naturezas.

A cor da pele, a altura, a envergadura,

As mãos, os pés, as bocas, os narizes,

A maneira de olhar, o modo de sorrir,

Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.

Tudo.

Afinal

Que haverá de comum entre nós?

Um ponto, no infinito.

 

Poema António Gedeão

 

Inquietação

21
Nov22

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Há muito tempo que não aprecio esta paisagem com o sentimento de tranquilidade em mim, é-me impossível esquecer a actualidade, a guerra na Ucrânia, uma mortandade pavorosa que cresce a cada dia, o frio gélido que se aproxima a passos galopantes, tanto sofrimento em causa da Liberdade. Foi sempre assim, a necessidade de sofrimento para uma qualquer libertação, até as histórias de amor são verdadeiras odes ao sofrimento, como se não houvesse amores felizes. Nada disto é tranquilo. Dificilmente vamos passar deste patamar. Escorrem as regras, através das garras que mais fincam, sejam elas do poder, do dinheiro, da ignorância, não importa onde, não importa quem, vão-se aos poucos os que guardavam as memórias de um mundo real - como quem guarda tesouros para repartir - daqui a nada pouco será contado, as vozes calam-se à medida em que se sentem ser inúteis, diria até, ridículas. Todos os dias morremos um pouco, menos válidos que antes.