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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Sensação

14
Jan24

Sinto-me assim uma coisa preciosa, fora do tempo, deslocada nas palavras, sabedora de outros saberes, por enquanto sem importância, sou como aquela mobília de outra época e de outras emoções, coisas vividas ao relento, nas margens de um rio, sob as estrelas, ao frio, ao calor sem protector solar, comendo iogurte com colheradas de açúcar, saboreando o granulado doce que se colava à língua, beijos mornos no areal escaldante, sapatos únicos, não no sentido de exclusivos, carcaça estaladiça com manteiga feita com natas do leite trazido pelo leiteiro, gritos na rua, risos sem remorso, alcunhas que faziam sentido, coisas sem sentido que tinham graça, a graça dos dias compridos desprovidos de ausências. 

Sinto-me coisa de museu, de palavras em desuso, de colheitas de alfarrobas e de subidas a montes de amêndoas colhidas com casca mole e casca dura, a pinhões rachados na pedra debaixo de grandes pinheiros mansos, a estradas ladeadas de grandes árvores, a sombras frescas e amoras doces cheias de poeira dos caminhos feitos de areia e pedra miudinha. 

Sinto-me antiga, quase com pele de seda, fazendo lembrar o papel de cetim, canetas de bico fino escrevendo em páginas de papel de linhas azuis, com cuidado para não as perfurar, cuidando da letra e do erro para não ter que as amarrotar e deitar fora.

Sinto-me fora de moda, porque parece-me que já usei tudo, que não há nada novo ou desconhecido, coisas de riscas e de quadrados, de folhos e de plissados, franzidos e curtos, compridos e berrantes.

Sinto-me cheia, de tudo e de nada, uma coisa estranha, mas conhecida, calma, mas desesperante, eu mesma, mas não eu de sempre, mas a de agora, e sabe-se lá mais o quê, assim como peça de museu, avistada, olhada com interesse, mas sem se saber bem o que é.

Suicídio

08
Jan24

Na semana passada uma actriz/modelo conhecida do público português, mas não o suficientemente famosa para dar lugar a grandes manifestações de pesar, saltou da Ponte 25 de Abril, num salto sem retorno, ela uma mulher ainda com tanto por viver, com três filhos, um dos quais com autismo severo. O ano passado esta mulher deu uma entrevista a um programa de televisão, daqueles que passam durante a tarde, diz-se que foi uma entrevista em que se antevia o sofrimento daquela mulher que assumiu os seus vícios para compensar o sofrimento de não ser capaz de estar à altura daquilo que a sociedade esperava dela: uma boa mãe, uma mulher resiliente, uma mãe e trabalhadora determinada, sem cansaços nem queixumes.

Não ouvi ou li grande coisa sobre este assunto, sobretudo de opiniões de como é viver em sofrimento, numa permanente luta consigo mesma, sendo que tal situação acabou por levá-la ao desespero total. Neste sofrimento surdo de que não se é capaz de se reencontrar a paz de espírito, o sossego do corpo, o sentir de uma abraço, a alegria de viver.

Apesar de tudo, este sofrimento foi falado no ecrã, sítio onde mais nada resta, e muita gente viu e falou, e disse que trabalhasse e que se fizesse à vida, e a mulher foi-se e eles continuaram falando, falando como se nada tivesse acontecido.

 

Colinas mergulham na brancura.

Estrelas ou pessoas

Me olham com tristeza, desapontadas comigo.

 

Um fio de hálito fica no caminho.

Ó, lento

Cavalo cor de ferrugem,

 

Cascos, sinos doendo –

A manhã toda

Manhã ainda escurecendo,

 

Essa flor ao relento.

Meus ossos sentem um sossego, os campos

Distantes dissolvem meu coração.

 

Eles ameaçam

Me abandonar por um céu

Sem estrelas e órfã, água escura.

Poema Sylvia Plath 

Recuso-me

02
Jan24

Estive ontem a ver um filme cuja estória se passava durante a segunda guerra mundial, o tema era sobre um homem alemão que não queria fazer juras a hitler, porque não concordava com o lema, mesmo que para isso fosse condenado à morte, o que foi, mas como ele dizia não iria assinar uma declaração para ser livre - ele já era livre. Foi incompreendido por todos os vizinhos, alguns familiares e outros que não entendiam  o que é viver sem ser-se agressivo. 

Quanto a mim vive-se hoje o culto da agressividade, tenho-me deparado com gente que se apregoa de frontal, de coração ao peito, que diz a verdade, acima de tudo a verdade, no entanto tenho constatado que nada mais é que a agressividade vestida de mentirinha, numa coisa mesquinha de ser que se julga superior, coisa que não é perecível, acima do Ser. Por todo o lado vemos que é muito mais admirada a pessoa agressiva do que aquela que é passiva, exactamente por esta conexão de que ser-se bom é uma coisa má, é algo que não leva a nada, que não somos guerreiros, determinados, como se o intimo estivesse ligado directamente com o mecanismo das acções que nos tornam rápidos.

E ele escolheu morrer para não deixar de ser quem era, e morreu livre, é mais fácil ser-se mau que bom, a bondade exige uma inteligência fina, pensamento e reflexão, a maldade é minimamente primária, coisa como o açúcar que dá energia num ápice, no entanto nos mina e vicia, tornando-nos prisioneiros de desculpas para o que fizemos, de entre elas a "verdade", coisa estúpida de se ser. 

Tantas verdades são apregoadas, palavras distorcidas até ao mais ínfimo pormenor, num dia têm um valor, no dia seguinte outro, mas como vivemos cada vez mais rápido, por vezes nem chega ao outro dia, tudo muda a toda a hora, os discursos, as vontades, o propósito, a verdade. 

Desfazem-se mentiras todos os dias numa banalidade desconcertante, importa é ter-se resposta pronta - que seja assertiva segundo a actual sociedade que pouco ou nada questiona -, dinâmica em termos de linguagem fluida e enriquecida segundo os melhores dicionários. O efeito contágio acelera o processo até o elevar ao topo da pirâmide, chegando lá nada mais há a fazer senão manter o equilíbrio, num esforço continuado para se ser assim, contudo ninguém é livre no topo.

 

E tu já pintaste uma tela?

06
Nov23

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A liberdade é agora quadrada, assim como quadrado é o tempo, as madrugadas de hoje são planas e dos botões quadrados escorregam letras que se fazem palavras, agrupadas ou separadas por virgulas e pontos, com exclamações e interrogações, fervilham lentamente pelo cosmos da luz azul, relembrando velhas lendas, criando demónios, cascatas de vozes proferidas em silêncio, nem no cérebro, nem na boca, apenas na planície cálida invocada num expirar de utopia, navegando, navegando sem sair do lugar.

Espezinhando as vozes que não se adivinham, loucura sem som, como um louco divino sem corpo. Indo e vindo no chumbo cinzento de um fim de dia desigual tão transparente que murmura no lamacento quotidiano sem grande propósito. O final quadrado que começa quando acaba.