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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

E ficam as flores

15
Jan22

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Foi uma semana dolorosa, parece-nos sempre que não há nada para falar sobre a morte, um fim anunciado desde que nascemos, no final sentimos que ficam os silêncios preenchidos pelas memórias que continuam vivas, também as palavras ecoam, como ecos pequeninos que vão e vêm à medida que nos vamos dando conta da dor. Nunca mais haverá oportunidade de recuar, nem de encontrar o tempo perdido, o que foi é o que é, fica a generosidade, ficam os dias que foram cheios de risos e brincadeiras, ficam os barulhos dos papéis de embrulho rasgados com impaciência, e as voltas de carro, ficam os passeios pela mão e as jogatinas à bola, fica tudo guardado nos corações, assim como ficam aqui as flores, numa recordação perfumada pelos dias felizes, e é o que importa, é que os dias tenham sido felizes. 

Malmequeres

flor lilás

orquidea

Jarro

orquidea

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As flores também sorriem?

15
Mai21

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Eu não tenho muita curiosidade sobre o que há para além da morte, mas tenho uma imensa curiosidade em saber como vão reagir à minha morte, quem vai sentir a minha falta, o que vão dizer sobre mim, quais as palavras que me diríam num último adeus. 

 

 

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

 

Poema de Alberto Caeiro

Os olhos das boas pessoas

17
Abr20

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Filipe Duarte 

(1973 -2020)

 

 

Os olhos da boas pessoas são olhos cansados, com rugas à volta, e pálpebras descaídas, porque alcançam visões que nem todos são capazes, porque tiveram que ver e dormir sobre problemas que ninguém quer saber, são rugas marcadas que seguraram os dias de amargura, os olhos das boas pessoas são mais fundos e baços, porque deixaram o brilho espalhado por onde andaram. As boas pessoas vão-se demasiado cedo, é impossível entender, mas as mensagens curtas, trazem consigo a mesma essência das exaustivas, sem no entanto corrermos o risco de não saber o fim. Para entender, basta olhar nos olhos da pessoas boas. Os olhos das boas pessoas ficam para sempre. 

 

 

Diário dos meus pensamentos (28)

A trela

16
Abr20

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Ilustração Alenka Sottler

 

Pouco a pouco somos informados do que se passa na sociedade, quer seja na realidade global ou naquela em que vivemos à nossa dimensão, são muitas as vezes em que sabemos apenas aquilo que querem que se saiba, se não nos interessarmos estamos sujeitos apenas a uma verdade. Se deixarmos de ser persistentes incutimos nos outros a responsabilidade daquilo que nos sucede. Gente mansa. Há quem pense que ser manso é uma qualidade, para mim é uma consequência, como domesticar um cão, se fizeres o que eu digo, como eu digo, sem refutares, tens uma compensação, e dá-se um lugar, um cargo, uma promoção, uma boa avaliação, uma prenda. Não por mérito, não pelo esforço, não pela criatividade, não pela inteligência, mas por ter obedecido. Uma trela para sempre. Ao longo de todos estes anos a lidar com pessoas tenho aprendido que os que procuram a compreensão das coisas e da vida são os mais desobedientes, são também esses que trazem para a realidade as soluções e são os que criam as estratégias, muitas das vezes incompreendidos, abafados e até ridicularizados, sujeitos também à manipulação da informação prestada pelos obedientes. 

 

Lembro-me então dos que são obrigados a usar trela, ou porque é transitório, ou porque é a única forma de sobrevivência, são questões de vida, depois habituam-se a usá-la, até ela lhes deixar marca, e não serem capazes de a tirar, mas haverá um dia em que explodem e rompem o silêncio, quando já bateram no fundo e nada mais têm a perder, porque muitas das vezes até perderam a seus valores morais, anularam-se deixando de saber o que estão ali a fazer. E é neste impasse que se dá a liberdade, o último reduto, a desconstrução das frases que foram ouvidas e caladas e das acções que deixaram de dar importância. 

 

É quando esgotámos todas as suposições que fizemos e em que deixámos de dar desculpas aos outros e a nós próprios que seguimos  em frente até encontrarmos um novo caminho, ou talvez voltar ao caminho original,  àquele a que tínhamos saudades, saudades de nós e das nossas vontades, é altura de rebentar com a corrente e deixar a trela para quem a queira como recordação. 

 

 

"Todos os silêncios são cúmplices e têm uma quota parte de responsabilidade."

 

Luis Sepúlveda

(4 de Outubro de 1949 - 16 de Abril de 2020)