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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Daqui até ao Natal - 3

21
Ago24

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A arte de fazer o outro feliz é menos exigente do que a arte de ser-se feliz. Há pessoas que têm medo de serem felizes, quantas vezes já ouvimos: é sol de pouca dura; está tudo a correr tão bem que até tenho medo... talvez por a felicidade ser de curta duração, e depois? Então não se aproveita um momento bom porque a seguir vem um mau? 

Esta descrença profunda pelo quotidiano, a não aceitação das nossas emoções e daquilo que somos capazes de fazer para ultrapassar cada problema é como uma peçonha que cola como a própria sombra em dia de sol. 

Daquilo que eu tenho saudades, é de ouvir risos, conversas alegres...quando venho no comboio raramente se ouvem vozes, muito menos risos, é um silêncio embutido em chumbo, por todo o lado o foco é o telemóvel e os fones nos ouvidos, pescoços curvados como gente muito velha, alheamento total pela paisagem que passa ao longo de cada janela. Vive-se dentro de um ecrã. Ali se partilham todas as emoções, de modo escrito, em fotografia, e por último em áudio (tenho visto muito, coloca-se o telemóvel rente aos lábios e a coisa dá-se), pode parecer uma conversa, mas na realidade não é, é antes um monologo à espera de resposta. 

Da janela o céu passa azul velozmente entre as árvores paradas.

Conversas da escola - Encontro imediato

30
Ago18

Abri o portão e entrei sozinha na escola, a manhã ainda estava fresquinha, era fim de Agosto, os pássaros esvoaçavam por ali e a relva estava regada de fresco. Liguei o sistema, piquei o ponto e parto para a desactivação do alarme, coloco a chave na fechadura  e entro num outro local, sei que tenho pouco tempo até aquilo começar a apitar, sinto sempre um friozinho entre o entrar no espaço e o carregar na última tecla.

 

Já tenho os óculos colocados antes de abrir a porta (tenho que os por antes porque não posso perder tempo a colocá-los agora), uso-os para ver ao perto, na parede do meu lado direito tenho uns quadros de cortiça com vários avisos afixados, estico o braço direito para o teclado e roço o braço num dos quadros, pelo canto do olho direito vejo um rabo meio esverdeado e parecem-me ser pintas brancas, tudo isto está a uns dez centímetros da minha cara...um arrepio percorre-me a espinha, não posso fugir, nem gritar para aliviar a tensão, aquela porcaria pode disparar a qualquer momento, uns suores frios enchem-me o cérebro, a mão está a meio caminho de terminar a desactivação. Escolho esticar o dedo e continuar com a operação, finalmente consigo carregar no último dígito e saio dali em passo recuado e rápido. 

 

Sou uma heroína, venci o meu medo, do apito e da osga.