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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

The Sound of Silence

16
Jun20

 

Nos últimos tempos a rapariga do segundo andar tem tocado no seu contrabaixo, o som propaga-se até à minha sala, e fico ali a ouvir, é um privilégio que me encanta e me transporta para outros lugares, o som baila de lá para cá, fascina-me o serpentear das notas, a cadência de cada pausa, e o meu corpo agradece, sinto-me em paz, uma paz que me apazigua, como se uma mão gigante pairasse e me desse colo, num embalo leve de aconchego. Vou e venho sem sair daqui. A música tem aquela magia que já tenho saudades de sentir, numa cadeira a olhar o palco. Mesmo que eu não saiba interpretar uma pauta, nem uma clave de Fá, acordo a perceber que tudo se entende. 

 

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.

 

 

Fiama Hasse Pais Brandão, in As Fábulas

 

 

 

Um momento do meu dia

27
Jul14

 

Neste momento tenho a janela da minha sala aberta, o dia está indo embora, e do outro lado da rua chegam-me notas de música, entram pela minha janela e vêm até aos meus tímpanos. A flauta transversal de alguém que toca, e eu aqui ouvindo a melodia que paira no ar. Parece-me que as árvores também estão a ouvir, as suas folhas estão quietas enquanto o som passa por elas. Belíssimo fim de tarde.

 

 

Alice Alfazema