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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

#diariodagratidao 17-06-2019

17.06.19, Alice Alfazema
  Ilustração  Quint Buchholz   Hoje o meu dia de trabalho foi de borracha na mão, a apagar escritos e sublinhados nos livros escolares. Quando cheguei a casa comi uma enorme bola de gelado para superar o trauma. Mas desconfio que sou capaz de vir a sonhar com isto, que a borracha me persegue e eu não sou capaz de fugir dela. Ó meu Deus, que mal fiz eu na outra encarnação? Ainda bem que existem gelados!  

#diariodagratidao 23-04-2019

23.04.19, Alice Alfazema
  Ilustração  Mar Azabal   Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava. Havia de escrever rijamente. Cada palavra seca, irressonante, sem música. Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria. Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica? Para quê o arredondado linguístico? Gostava de atirar palavras. Rápidas, secas e bárbaras, pedradas! Sentidos próprios em tudo. Amo? Amo ou não amo. Vejo, admiro, desejo? Ou sim ou não. E como isto continuando.  

b

27.02.19, Alice Alfazema
  Ilustração Joseph Lorousso     "BASTA-ME um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve…   – mas só esse eu não farei.     Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes…     – palavra que não direi.     Para que tu me adivinhes, entre os ventos taciturnos, apago meus pensamentos, ponho vestidos noturnos,     – que amargamente inventei.       Cecília Meireles,  Viagem

#diariodagratidao 22-01-2019

22.01.19, Alice Alfazema
  Ilustração Yuji Kanamaru       “Ela crescia nos sonhos, digo a Roberto enquanto pintamos o cartaz. A Árvore das Palavras. Para contornar o seu tronco seriam precisas nove luas. E cada folha era extensa como um voo de pássaro.”   “ Viver é muito fácil, porque meço a partir de ti o norte e o sul. Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos não transbordem.”      Teolinda Gersão Moreno, in A Árvore das Palavras     É bom encontrar (...)

Uma Família nos tempos de Salazar

08.04.18, Alice Alfazema
  No dia 31 de outubro, véspera do dia de Todos-os-Santos, foram os três arranjar as campas do cemitério de Pedra Maria. O pequenino ficou com a caseira, a do Lanhas. Lavaram a pedra mármore da lápide tumular de António com lixívia bem forte e esfregaram vigorosamente o túmulo da tia de Minhoure com uma escova de aço. Tudo ficou limpo e adornado.       In, Uma Família nos tempos de Salazar, Florbela Teixeira         Alice Alfazema      

Livros

09.03.18, Alice Alfazema
Ilustração  Laura Lacambra Shubert     Eu lia há muito. Desde que esta tarde com o seu ruído de chuva chegou às janelas. Abstraí-me do vento lá fora: o meu livro era difícil. Olhei as suas páginas como rostos que se ensombram pela profunda reflexão e em redor da minha leitura parava o tempo. — De repente sobre as páginas lançou-se uma luz e em vez da tímida confusão de palavras estava: tarde, tarde… em todas elas. Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já as (...)