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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Dia mundial do livro

23
Abr22

 

Ilustração e video Nerina Canzi

 

Em algum momento da nossas vidas já nos deparamos com um livro que nos fosse especial, que tenha valido a pena as horas que lhe dedicámos, não são os livros capazes de mudar os mundo no sentido físico, mas mudam as pessoas no sentido mental, não são os livros apenas objectos estáticos, ou dinâmicos, coisas voláteis, ideias tristes ou cientificas, são pedaços quânticos de determinado universo. 

As coisas

31
Jan22

 

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As pessoas pensam que vivem mais intensamente do que os animais, as plantas e ainda mais do que as coisas. Os animais pressentem que vivem mais intensamente do que as plantas e as coisas. As plantas sonham que vivem mais intensamente que as coisas. Mas as coisas perduram e este perdurar é mais vida do que qualquer outra coisa.

Olga Tokarczuk, in Outrora e Outros Tempos, tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz

 

"O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros."

04
Ago21

girassois.jpg

Pintura Nikolay Bogdanov-Belsky

 

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
 
a primeira página: em fevereiro ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. Às vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada
 
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.
 
 
Poema de Maria do Rosário Pedreira