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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

"O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros."

04
Ago21

girassois.jpg

Pintura Nikolay Bogdanov-Belsky

 

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
 
a primeira página: em fevereiro ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. Às vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada
 
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.
 
 
Poema de Maria do Rosário Pedreira
 
 

Chega-te até mim

14
Nov20

rei da floresta.jpg

Fotografia Tetty Bracard

 

Vem até mim, estou do outro lado do caminho parecem dizer as árvores umas às outras, posicionando-se lado a lado, como num baile antigo, e lá bem no alto quase que se tocam com uma delicadeza respeitosa, juntas e de porte altivo erguem-se para ver as estrelas, talvez orando ao universo, e deixando passar o sol até ao chão, todos somos um.

 

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
 
 
 
Poema de Jorge Sousa Braga

 

 

 

O ano do Rato com asas

15
Out20

2020.jpg

Ilustração  Agnès Boulloche

 

Se tivesses que escrever um livro para descreveres este ano de 2020 que titulo lhe darias?

O meu seria: O ano do Rato com asas. 

Outras sugestões: 

Imsilva -  "Quando a normalidade passou a loucura" ou " Quando a loucura passou a normalidade"

Miss X -  O ano em que a Terra parou.

Cheia - O ano do medo.