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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Como ser uma valente Cabra

16
Fev25

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2025 - Estamos num mundo onde muita gente tem cascos duros, é coices a torto e a direito, lá diz o ditado que  a Esperança era verde, mas veio um burro e comeu-a, é o que se passa na actualidade, resta pouco em quem acreditar, uma grande maioria de "lideres" que não trazem nada de bom, nem exemplo, nem futuro, parecem cabras pastando eternamente num mesmo terreno, até nada restar, nem raiz, nem semente, alegres e saltitões, de pedra em pedra, marrando e caganitando de olhos esbugalhados. 

 

Que me perdoem as cabras, as verdadeiras.

Sensação

14
Jan24

Sinto-me assim uma coisa preciosa, fora do tempo, deslocada nas palavras, sabedora de outros saberes, por enquanto sem importância, sou como aquela mobília de outra época e de outras emoções, coisas vividas ao relento, nas margens de um rio, sob as estrelas, ao frio, ao calor sem protector solar, comendo iogurte com colheradas de açúcar, saboreando o granulado doce que se colava à língua, beijos mornos no areal escaldante, sapatos únicos, não no sentido de exclusivos, carcaça estaladiça com manteiga feita com natas do leite trazido pelo leiteiro, gritos na rua, risos sem remorso, alcunhas que faziam sentido, coisas sem sentido que tinham graça, a graça dos dias compridos desprovidos de ausências. 

Sinto-me coisa de museu, de palavras em desuso, de colheitas de alfarrobas e de subidas a montes de amêndoas colhidas com casca mole e casca dura, a pinhões rachados na pedra debaixo de grandes pinheiros mansos, a estradas ladeadas de grandes árvores, a sombras frescas e amoras doces cheias de poeira dos caminhos feitos de areia e pedra miudinha. 

Sinto-me antiga, quase com pele de seda, fazendo lembrar o papel de cetim, canetas de bico fino escrevendo em páginas de papel de linhas azuis, com cuidado para não as perfurar, cuidando da letra e do erro para não ter que as amarrotar e deitar fora.

Sinto-me fora de moda, porque parece-me que já usei tudo, que não há nada novo ou desconhecido, coisas de riscas e de quadrados, de folhos e de plissados, franzidos e curtos, compridos e berrantes.

Sinto-me cheia, de tudo e de nada, uma coisa estranha, mas conhecida, calma, mas desesperante, eu mesma, mas não eu de sempre, mas a de agora, e sabe-se lá mais o quê, assim como peça de museu, avistada, olhada com interesse, mas sem se saber bem o que é.

Época oficial

10
Jan24

 

Ilustração Marie-Eve Tremblay

“A primeira taça humedece os meus lábios e garganta;
A segunda taça quebra a minha solidão;
A terceira taça procura as minhas estéreis entranhas, mas para ali encontrar cerca de cinco mil pergaminhos;
A quarta taça levanta uma ligeira perspiração e todas as iniquidades da vida se dispersam pelos meus poros;
A quinta taça purifica a minha carne e ossos;
A sexta taça abre o reino dos imortais;
A sétima taça não poderia ser bebida, só a leve brisa sobe nas minhas mangas”.

Poema  Lu Tong

Não é só o sol que se vai embora,

27
Fev23

IMG_20230225_181537.jpgé também a oportunidade única de vivermos um momento tão belo e fugaz, sabendo de antemão que jamais haverá outro igual.

Muda é a força (dizem-me as árvores)
e a profundidade (dizem-me as raízes)
e a pureza (diz-me a farinha).
Nenhuma árvore me disse:
"Sou mais alta que todas".
Nenhum raiz me disse:
"Eu venho do mais fundo".
E nunca o pão me disse:
"Nada há como o pão".
 
 
Pablo Neruda, tradução Carlos Campos