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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A indiferença

29
Jan22

No inverno de 2022, na cidade luz, numa rua de muito movimento - Rue de Turbigo, no bairro dos cafés, a poucos metros da Place de la République, entre uma loja de vinhos e uma de óculos, um homem de oitenta e poucos anos caiu e ficou desmaiado na rua, sem que ninguém o socorresse ficou nesse estado durante nove horas, pelas seis e pouco da manhã do dia seguinte um sem-abrigo deu o alerta às autoridades de socorro, no entanto o tempo tratou de tudo, o homem morreu de hipotermia grave, morreu porque não houve ninguém que tivesse tempo para parar, nem ninguém que fizesse um esforço por perceber o que poderia ter acontecido, nem quem tivesse empatia, ou solidariedade, ou amor ao próximo, um pouco de compaixão, ou de coragem, sim porque durante aquelas nove horas uma grande quantidade de cobardes passaram por ali e nada fizeram. Foi “morto pela indiferença”. Esse homem era René Robert, fotografo de renome, mas poderia ser qualquer outra pessoa, assusta pensar para onde podemos estar a caminhar.

O conforto da indiferença

10
Abr14

Andei muito, sempre apressado, ciente de que, mesmo correndo, a sociedade me deixaria para trás. E assim é. Das maneiras à mecânica, dos biplanos aos milagres da Medicina, das conversas de café às amizades do Facebook, foi incrível a reviravolta, devem ser muitos os que, como eu, ressentem uma desagradável sensação de desnorte. 

Sou de uma das gerações criadas na bela ilusão do ideal solidário, de amanhãs tão soalheiros que, tribal ou mundial, nenhuma guerra teria horror bastante  para ensombrá-los.
Inesperadamente, as sombras criadas pelas hecatombes depressa esqueceram, e embora nos amanhãs de muitos o sol nem sempre brilhe, para quase todos são mais frequentes as abertas.
Mas porque assim tinha que ser, ou Deus assim mandou, foi-se-nos o ideal solidário e deixámos que viesse ao de cima o conforto da indiferença, trocámos o desagrado do dia-a-dia pelos arcos-íris da realidade virtual.
Desse modo pôde dias atrás acontecer que, num eléctrico de Amsterdam, o destravado que puxou duma pistola tivesse de desatar aos gritos, porque os passageiros, entretidos todos eles com os seus smartphones, não se davam conta do assalto.
Alice Alfazema