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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Inverno branco

09
Dez20

branco.jpg

Fotografia Daisy Gilardini

 

Era uma vez uma foca branca, tão branca como a alva neve, fofa como os flocos que se amontoaram no velho glaciar meio desfeito, nasceu duma foca cinzenta, que não sabia quem bem quem era o pai da sua cria, eram uma família disfuncional, a mãe saía durante longos períodos para conseguir trazer-lhe algum peixe, e o suposto pai andava por ali a fazer olho grande às outras fêmeas. De vez em quando lá conseguia convencer uma delas. O grau de parentesco entrelaçava-se em cada olhar, ali todos eram meio-irmãos. 

Um dia a mãe deixou de lhe alimentar, apaixonou-se por outro macho que andava por ali a rondar a eira. Era um macho coxo e gordo, de um cinzento caca assustador, com algumas cicatrizes no focinho, mas como o amor é cego, e ele possuía a melhor rocha dos cinquenta metros quadrados mais próximos, os dois juntaram as patas e foram viver juntinhos, ele fez-lhe uma cama com algas e saltou-lhe para cima, foram dois minutos de puro martírio. 

E a foca branca? A foca branca é agora estrela de um reality show, onde mais focas brancas e fofinhas vivem vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas todas juntas, na esperança de fazerem presenças na disco Mar Bravo do Sul.

 

 

b

27
Fev19

 

Ilustração Joseph Lorousso

 

 

"BASTA-ME um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

 

– mas só esse eu não farei.

 

 

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

 

 

– palavra que não direi.

 

 

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

 

 

– que amargamente inventei.

 

 

 


Cecília Meireles,  Viagem

 

Um copo de leite e o resto da vida

02
Jun18

Ilustração  Sarah K. Lamb

 

 

 

Um dia, um rapaz pobre que vendia mercadorias de porta em porta para pagar seus estudos, viu que só lhe restava uma simples moeda de dez centavos e tinha fome.

 

Decidiu que pediria comida na próxima casa. Porém, seus nervos o traíram quando uma encantadora mulher jovem lhe abriu a porta. Em vez de comida, pediu um copo de água.

 

Ela achou que o jovem parecia faminto e assim lhe deu um grande copo de leite. Ele bebeu devagar e depois lhe perguntou:

 

- Quanto lhe devo?
- Não me deves nada - respondeu ela. E continuou:
- Minha mãe sempre nos ensinou a nunca aceitar pagamento por uma oferta caridosa.

 

Ele disse:

- Pois te agradeço de todo coração.


Quando Howard Kelly saiu daquela casa, não só se sentiu mais forte fisicamente, mas também sua fé em Deus e nos homens ficou mais forte. Ele já estava resignado a se render e deixar tudo.

 

Anos depois, essa jovem mulher ficou gravemente doente. Os médicos locais estavam confusos. Finalmente a enviaram à cidade grande, onde chamaram um especialista para estudar sua rara enfermidade. Chamaram o Dr.Howard Kelly. Quando escutou o nome do povoado de onde ela viera, uma estranha luz encheu seus olhos. Imediatamente, vestido com a sua bata de médico, foi ver a paciente.

Reconheceu imediatamente aquela mulher e determinou-se a fazer o melhor para salvar aquela vida. Passou a dedicar atenção especial aquela paciente. Depois de uma demorada luta pela vida da enferma, ganhou a batalha.

 

O Dr. Kelly pediu a administração do hospital que lhe enviasse a fatura total dos gastos. Ele conferiu, depois escreveu algo e mandou entrega-lá no quarto da paciente. Ela tinha medo de abri-la, porque sabia que levaria o resto da sua vida para pagar todos os gastos. Finalmente abriu a fatura e algo lhe chamou a atenção, pois estava escrito o seguinte:

 

Totalmente pago há muitos anos com um copo de leite (assinado).
Dr.Howard Kelly.