Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Olhar

Verão 2020

21
Jun20

IMG_3680.JPG

 

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Pai, ensina-me a olhar!

 

 

Eduardo Galeano, in O Livro dos Abraços

 

 

Que caminho é este

29
Set19

IMG_2687.JPG

Que caminho é este, que parece levar ao mar, mas não, para além dele há serras e montes, só depois os rios e o mar. É um caminho estreito, com uma estrada já gasta, pouco estimada, ladeada de seres silenciosos e verdes, que abanam com o vento, acolhem a chuva e os pássaros, tem compromissos com os insectos, dão sombra fresca e purificam o ar que respiramos.

 

Que caminho é este que percorremos em estado neurótico, dando prioridade à especulação, ao egoísmo e à ganância. Que estrada tão sinuosa e cheia de armadilhas, onde a miséria se mantém à espreita sentada em baloiços de oiro, empurrados pela ignorância e com lacinhos de sadismo. 

 

Que caminho é este que afunila a cada dia, entrando cada vez mais gente em carreiro, dão tudo o que não têm, dão tudo o que não podem, têm os dias contados, mas pensam que têm a eternidade, e vão, sem virem, num único sentido, nada têm consigo, vazios, vagos, vendidos. Vendem-se sem valor, casos ocos, mudos, sem atitude.  

 

Nã vale a pena a gente andar cá com manias…

03
Fev18

Tenho o resto do cozido que ficou do jantar de ontem ao lume, estou a acrescentar mais repolho, não tarda nada está toda a gente aí para almoçar, devem de vir esfaimados. Lá fora está um frio de rachar qualquer pele que se esgueire à portada. Já estendi roupa e já a recolhi, passei mais um monte dela, aspirei e dei um jeito pela casa. Em resumo vou dizer que não fiz nada. Que é aquilo que as mulheres dizem à segunda feira quando voltam ao emprego. 

 

Também já coloquei aqui umas duas conversas da escola, e agora deparei-me com este texto do blogue Âncoras e Nefelibatas:

 

Passo de moto, ou de carro, aceno. Parte das vezes não me reconhece. Cabreiro, magro e velho, tisnado do sol, roupa suja e surrada, o saco do farnel à cinta, a mulher demente já. Encostado ao pau, os cães de roda.

Hoje, ali ao fundo da ladeira do «um pouco mais de azul» estaciono o carro, saio e tiro os óculos de sol: é ti manel, às vezes digo-lhe adeus quando passo mas você nem dá conta de quem é…

Conhece-me finalmente, trata-me pelo nome do meu pai. Dá-me os sentimentos pela minha irmã. Abraça-me sem pejo ou cuidado, pendurado em mim, um braço por cima do pescoço, a outra mão que deixa o pau atrás. O cheiro intenso a cabras e suor.  Os cães roçam-se-me nas pernas ainda molhados do mato. Nim sê o que te diga rapaz! Isto a vida é um ‘nstante. Nã vale a pena a gente andar cá com manias… 

A roupa que trago no corpo aqui em casa ainda cheira bem. Do abraço dele e do pêlo dos cães.

 

E a vida é assim, há textos que nos dão ânimo ao dia.

 

Logo ao jantar haverá massa do cozido com muita hortelã e talvez um bolo de mel com canela. Apetece-me o cheiro de um bolo cozido com mel e canela e na mão uma chávena de chá bem quente. Está muito frio lá fora e há gente que dorme ao relento, e gente que tem fome e não tem o que comer, e gente tem o que comer e passa fome, e gente parva, e gente inteligente, e gente que tem a mania que é mais que gente.

 

 

Alice Alfazema