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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Fogueira das vaidades

15
Ago25

Vezes sem conta é repetido o cenário de fogo que assola Portugal há semanas, enquanto o primeiro ministro e o presidente da república andam a banhos pelo reino dos algarves, entre copos de cerveja, para eles ficou para primeiro plano o anúncio da vinda do espectáculo da fórmula um, condiz perfeitamente com aquilo que se passa na actualidade: uma guerra não é uma guerra, é antes uma crise; um genocídio não é um genocídio é uma defesa de um país contra o terrorismo; um dos candidatos ao prémio nobel da paz é um dos gajos que faz negócios de armas e de moral duvidosa.

Por isso está tudo bem, e em perfeita harmonia com os valores que se querem para esta nova realidade.

Os nossos comentários nas redes sociais revelam aquilo que somos?

14
Ago25

Tarek al-Farra é um jovem de 23 anos que tinha uma vida em Gaza, tal como tantos jovens em Portugal e por esse mundo fora, mas como bem sabemos tudo se alterou para um cenário dantesco de assassinatos à população, feitos a céu aberto, e assim  num repente todos os sonhos se esvaem, pode-se dizer que em sangue e em dor.

Dá-me a sensação de que vamos a caminho de outra época de trevas, uma idade média dos tempos modernos, era bom que tivéssemos ou pudéssemos aceder à nossa memória genética, talvez tudo fosse mais harmonioso e pudéssemos construir um mundo emocionalmente mais inteligente. 

E como se tudo isto não bastasse, as redes sociais são as novas arenas, em que o povo reclama sangue e dor sem qualquer empatia ou réstia de humanidade (se bem que eu duvido, cada vez mais, sobre o seu significado).

Nas imagens seguintes, podemos ver a universidade onde o jovem estudava, o próprio quando tinha uma vida que podia almejar alguns sonhos e a última  revela o que resta da sua casa: a chave.

Mais em baixo transcrevo alguns dos comentários que estão no Facebook da noticia realizada pela CNN Portugal, não é que seja importante dar palco a gentalha, mas é isto que está a transformar o nosso mundo num lugar pior, porque isto não é assinalado como maldade, mas como opinião.

 

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"A carta de aceitação na Universidade Nova de Lisboa é o bem mais precioso que Tarek al-Farra, de 23 anos, tem. Um bilhete para o futuro, entre escombros, pó e o calor sufocante de uma tenda improvisada em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza.
No papel, a vida dele já deveria estar a mudar. No próximo 16 de setembro, começam as aulas do mestrado em Estudos Ingleses e Norte-Americanos. Na prática, está preso num território cercado, onde cada passo para fora da tenda pode ser o último."

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"Não são apenas paredes e um teto. É o calor, o conforto e a vida que conhecia. Desde esse dia, tenho andado deslocado, como qualquer outra pessoa aqui. De lugar em lugar. A perseguir o cheiro de um lar que já não existe. À procura do abraço de um quarto que me acolhia, do cheiro da comida da minha mãe na cozinha, das gargalhadas dos meus irmãos. A minha casa era simples, mas era o único lugar no mundo que sentia verdadeiramente como meu".

Tarek al-Farra

 

Noticia e fotos retiradas de CNN Portugal

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Comentários à notícia:

"Quero recordar às Universidades que muitos jovens portugueses de Portugal que gostariam de ter possibilidades de estudar numa universidade em Portugal e não podem e outros que já estão a estudar numa Uni. e derivado ao grupo familiar não conseguir suportar as despesas têm que desistir...SÓ para lembrar os nosso"

Maria Miranda (77 gostos)

 

"Que texto tão poético........

O tarek quer vir para Portugal.......

Quer ser doutor.........

Que bonito"

Francisco Madeira (30 gostos)

 

"Ele a perguntar, Logo eu."

António Mendes Mendes

 

"Problema dele, nos brasileiros já temos problemas demais pra nós preocupar com problemas de estrangeiros"

Derivan Reis

 

"Fique onde está. Não precisamos dessa gente no nosso País."

Graça Gersão

 

"Que vá para Israel é só atravessar a fronteira."

Elisabete Sério

 

" E eu não sei se vou ter dinheiro para a minha filha acabar os seus estudos. Será que isso também pode ser notícia. Que nojo....."

Lipa Resende (Luís Resende)

 

"Outra vez arroz?

Luísa Sobral

 

E termino assim (porque não consigo ler mais nenhum), com este último comentário de uma senhora enfermeira. 

FOME como arma de guerra

27
Jul25

fome.webp 

Imagem: Al-Rifi/ Reuters

 

Como animal somos uma espécie surpreendente, os anos passam e nada fica. Para que servem agora as palavras? Vivemos, outra vez, tempos de mentiras atrozes, com grandes líderes mesquinhos e mentirosos e pessoas - imensas - que gostam de acreditar neles. 

Assiste-se à banalização de assassínios impostos pela fome, não importa se são crianças ou não, não importam as imagens, porque poucas são capas de jornais/revistas ou abertura de telejornais.

Há uma futilidade generalizada e global, que chama a atenção para a corrida às visualizações e à estupidez, é mais visto e opinado como sendo um horror um homem e uma mulher, casados e amantes (a exemplo disso a corriqueira imagem dos que foram ver os Coldplay), do que guerras e injustiças sociais, desrespeito pelo meio ambiente e outros assuntos que poderiam levar a um mundo melhor. E grave é o facto de as redes sociais fecharem a partilha do que se passa nestas situações e darem voz aos escandalizados com traições domésticas levando até ao achincalhamento desmesurado dos visados e à demissão nos seus empregos. Estamos assistindo ao crescimento de uma estupidificação que encalha a evolução.

Se por um lado há que diga à boca cheia que tudo tem um propósito, esquecendo-se que existe a escolha, e que poderá haver várias formas de fazer o mesmo, por outro lado a guerra também é uma empresa que precisa de ser alimentada, gerida e de ter estratégia, e a do momento é matar à fome a maior quantidade de pessoas, e aumentar o ódio para criar mais terroristas para explicar o resto.

Este local não é
Próprio para plantar.
Aqui a terra é
Dura, seca, irritante –
Agulhas de folhas mortas
Arranham.
Fecho os olhos, o pó
Sufoca-me a garganta,
Nunca pensei que a terra
Pudesse ser tão pesada,
Talvez se eu
Levantar um braço
Alguém venha atravessar
Um dia a minha sepultura e,
Como nas noites dos filmes de terror,
Veja uma mão sem vida, uma palma aberta.
Dedos meio enrolados...
E grite.


Eu não morri nesse dia –
Outra coisa sucedeu
E ainda permanece
Na sepultura pútrida
Fermentando o conhecimento das trevas.

Poema de Hanan Ashrawi