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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Arrebol

Árvore de Natal

05
Dez22

dádiva.jpg Ilustração Karl Jóhann 

 

Deram-me um saco cheio de laranjas e clementinas pequenininhas, quando chegaram cá em casa ainda continham nelas as bagas gordas de chuva que caíram durante a noite, num ápice devorei uma clementina minúscula, o sabor agridoce escorreu devagar pela garganta. No fim engoli um sol.

 

Perfumada laranjeira,

Linda assim dessa maneira,

Sorrindo à luz do arrebol,

Toda em flores, branca toda

– Parece a noiva do Sol

Preparada para a boda.

E esposa do Sol, que a adora,

Com que cuidados divinos

Curva ela os ramos, agora!

E entre as folhas abrigados,

Seus filhos, frutos dourados,

Parecem sois pequeninos.

 

Poema de Júlia Lopes de Almeida

 

Ano internacional do vidro

2022

05
Nov22

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Quando a Terra “se concebeu a si mesma na grande forja de fogo da própria atividade cósmica”, no acontecimento das manifestações terrestres que desenvolveram aumentos de temperatura e levaram à fusão da areia, quartzo e rochas sílicas, originou-se este fenómeno do vidro natural ou vidro vulcânico, que persiste no seu estado natural e primário.

Aurora Faustino Gato

 

O vidro é uma substância sólida e amorfa feita de areia líquida, maioritariamente dióxido de silício (SiO2), mas também carbonato de sódio (Na2CO3) e carbonato de cálcio (CaCO3). Existem diversos métodos de produção de vidro, nomeadamente a produção química de vapor, a pirólise, a irradiação de neutrões, entre outros.


No processo clássico de fusão ou resfriamento, o vidro funde a uma temperatura de cerca de 1,500ºC, passando do estado sólido ao estado líquido,  é neste estado que se dá início à sua moldagem e consequente  transformação. Num alto nível de pureza, o vidro é um óxido metálico transparente, com dureza elevada, inerte e biologicamente inactivo,  o vidro não é considerado uma substância sólida ou líquida, mas sim uma substância sólida não cristalina. Ao contrário dos cristais, o vidro apresenta um  arranjo atómico não periódico e não simétrico, formando-se de forma aleatória.

O vidro tem-nos vindo a acompanhar ao longo dos séculos, melhorando o nosso bem-estar e a nossa qualidade de vida, tornando-se assim num dos materiais mais versáteis e importantes da nossa história. Por esta razão, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a comemoração do Ano Internacional do Vidro em 2022, para que se conheçam as suas características que, combinadas com o engenho humano e a criatividade, podem ser aplicados em campos tão diversos como a arquitectura, a engenharia, a arte, de entre outros. 

 

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Durante o século XIII, a ilha de Murano em Veneza, tornou-se um centro de fabricação de vidro, onde desenvolveram o vidro excepcionalmente claro e incolorcristallo, assim denominado pela sua semelhança ao cristal natural e, utilizado maioritariamente em janelas, espelhos, lanternas e lentes. No final desse século, a República de Veneza, ciente da excelência do trabalho dos mestres vidreiros locais, decretou que todos os fabricantes de vidro, trabalhadores, assistentes e suas famílias, passassem a viver na ilha de Murano e, para quem tentasse fugir da ilha existia a pena de morte. Entre os séculos XV a XVIII, a arte do vidro esteve envolvida num grande secretismo e sigilo e, os mestres vidreiros apontavam as suas receitas, composições e experiências realizadas em pequenos cadernos designados por arcanos. 

  

A arte vidreira em Portugal data do século XV,  trabalhos arqueológicos têm trazido à luz do dia vestígios de fornos de vidro em toda a região do Ribatejo e da Outra Banda (margem sul do Tejo), assim como pelo restante país.

Há quem indique a Fábrica do Côvo, actualmente perto de Oliveira de Azeméis, como a primeira manufactura de relevo em Portugal. Foi instituída essa manufactura por provisão de D. João II, sendo que era uma indústria ainda muito elementar e que produzia vidro translucido, verde ou esverdeado. Já o forno de Coina, que mais tarde viria a ser a Real Fábrica de Vidros de Coina, terá começado a elaborar em 1498, primeiro em pequena escala, indo concorrer mais tarde com o forno do Côvo. A determinada altura houve invejas e rivalidades e foram determinadas duas regiões de manufactura de vidro, regiões essas divididas pelo rio Mondego.


A localidade de Coina era indicada para a manufactura do vidro pois reunia três condicionantes indispensáveis: a proximidade das areias de Coina, matéria prima essencial indispensável à fusão do vidro, a existência de madeiras (pinhal) para a alimentação dos fornos e o contributo e experiência técnica de mestres, vidreiros estrangeiros italianos, franceses, irlandeses, ingleses e alemães. Seguindo-se então depois um período de crise em que foi escassa a matéria prima (lenha, combustível vegetal), para manter os fornos a funcionar, a manufactura de Coina foi assim transferida para a Marinha Grande,  passando a denominar-se de Fábrica Real da Marinha Grande, com o tempo foram implementadas técnicas e tecnologias introduzidas pelos mestres vidreiros estrangeiros vindo a acontecer  posteriormente a manufactura proto-industrial.

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Vidro Depósito da Marinha Grande

 

 

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Do vidro nasceram os primeiros vitrais, que nos remetem aos tempos medievais, surgiram assim na Europa do século X, nas igrejas francesas e alemãs, incorporados na arquitectura gótica. Os vitrais tinham inicialmente por objectivo ilustrar as cenas bíblicas, contando as histórias por meio de figuras num tempo em que uma pouquíssima parcela da população sabia ler, tornaram-se essenciais na forma de guiar o povo de acordo com os ensinamentos religiosos através das suas figuras ilustrativas. A cor era o elemento primordial para que os vitrais através da luz que vinha de fora da igreja despertassem a curiosidade das pessoas em relação às histórias contadas na forma de ilustração, assim era também  um meio de atrair a população às igrejas, tornando a fé mais apelativa em comparação com as paredes cinzentas das catedrais góticas.

As técnicas de execução dos vitrais foram aprimoradas ao longo da história. De entre outras são usadas duas técnicas para a sua confecção: os vitrais de chumbo e os vitrais de liga flexível. A diferença entre os dois está no chumbo. Como o próprio nome diz, no vitral com chumbo utiliza-se a liga de chumbo para unir as peças e formar o mosaico que é a peça de vitral. No vitral de chumbo aplica-se a grisalha directo no vidro, que depois será levado ao forno e queimado a uma temperatura entre 630ºC e 640ºC, podendo chegar até 700ºC, na arte nasce então a cor, o volume, a luz,  e a sombra em cima do vidro colorido, quando esse processo estiver pronto, é realizada a montagem com a linha do chumbo. No vitral com a liga flexível a pintura é feita sobre uma placa de vidro, às vezes pontilhado, do tamanho da peça. A parte do volume é realizada nesse vidro pontilhado, depois a placa é queimada inteira no formo, finalmente os recortes de vidro originais são encaixados em cima dessa placa. Os materiais são praticamente os mesmos, mas há uma inversão da técnica, em vez de se pintar no vidro colorido, pinta-se na base e encaixa-se o vidro colorido por cima. Considera-se que é uma técnica mais ecológica, que tem mais protecção e mais durabilidade que o tradicional, uma vez que o vidro colorido fica dentro de um ‘sanduíche de vidro’, protegendo a pintura por mais tempo, e a durabilidade é maior por não estar tão exposta ao tempo.

 

E como a História nos revela, o vidro tem um lugar especial na evolução da arquitetura assim como nas nossas mesas, tornando-se hoje em dia verdadeiramente comum e democrático, presente no nosso quotidiano e na Arte sem nunca perder o ar mágico que o caracterizou ao longo dos tempos.

Aurora Faustino gato

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Nesta pesquisa feita depois de ter conhecimento que este ano é dedicado internacionalmente ao Vidro, e sendo o Vidro tão banal nos nossos dias, tanto que nem damos conta da sua importância, foi surpreendente para mim constatar que não sabia praticamente nada sobre o assunto, gostei especialmente de ler esta Tese de Mestrado  DESIGN & VIDRO A Herança da Indústria Nacional da Marinha Grande, Aurora Faustino Gato.

Fontes:

 Vitrais - Casa Ciano

MWNF - Museum With No Frontiers

A arte de trabalhar o vidro, Maria Andrade

Câmara Municipal do Barreiro

DESIGN & VIDRO A Herança da Indústria Nacional da Marinha Grande, Aurora Faustino Gato

Depósito da Marinha Grande

 

 

Ao navio Sagres

A brisa esfaimada do Atlântico

22
Out22

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Hoje fui celebrar a chegada da Beatrice. A depressão atlântica, numa brisa esfaimada vinda do Oceanso Atlântico encharcou-me a roupa até aos ossos, mas soube-me bem, levou-me àquela velha sensação de estar-se vivo, de pertencer a algum lugar, de fazer parte de um todo.

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Os homens perdem-se num lago pútrido de ilusões
Nem o sul já conseguem vislumbrar
Chacinam as criaturas destroem as florestas
Para construírem a ferro e betão catacumbas de podridão
Esqueceram que devem abraçar a natureza com paixão
Os oceanos as montanhas os vulcões
Os maremotos as tempestades as grandiosas monções  
 
Ana Maria Oliveira
 
 

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Navegar, navegar pelas emoções, que é como quem diz: deixar-se ir pela reflexão sobre si mesmo, enfrentar as próprias tempestades, amigos como barcos salva-vidas, remar, remar assim perdidamente, como quem quer desaparecer, remar sem rumo, num barco preso num convés.

 

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Na desordem da tempestade, a ordem das amarras, o brio dos nós de marinheiros experientes, a ordem da tarefa cumprida, o desassossego do canto das gaivotas, o céu cinzento, as gotas de água que escorrem no rosto, um fumo acesso num cigarro molhado, a barba húmida do sal.

 

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Tudo ali está limpo, as tábuas alinhadas do convés quase que reflectem o céu, os dourados brilham sobrepondo-se às gotas de água vindas das nuvens cinzentas, naqueles poucos metros flutuantes tudo ali tem um propósito, nada é ao acaso, tanto sal derramado, tanto sol por descobrir.

  

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Ergue-se o mastro, qual pilar, escadas de cordas, bandeiras ao vento, encharcadas mas mantendo a intenção, força de braços, força de espírito, liberdade, num rumo a vários rumos. A madeira não geme, de tanto saber adaptou-se aos braços e aos gritos, à loucura dos dias tristes, ao deslumbre das fantasias, aos amores, a tudo.

 

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Vinda de longe, de muito longe, o que eu andei para aqui chegar, tantas milhas, tanto sal, tantas lágrimas, tantos risos, tantas saudades, no ar há um cheiro a comida, que cheira a casa, a conforto, o marinheiro diz-me que é strogonoff, e eu queria comer ali, tenho em mim saudade de navegar, é estranho que assim seja, eu que nunca naveguei, mas está-me no sangue esta alma de marinheiro.

 

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A vida redonda, em círculos, a vida a flutuar numas tábuas feitas à medida do artesão, mestre em conhecer as ondas, homens ao mar, do mar, lobos marinhos, mão calejada do sal, passo gingado, equilíbrio, paciência, trabalho de equipa, brio, organização, porto de abrigo, barra, farol, estrela do mar que flutua.

 

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O que vou vestir para encontrar-me com o Armand?

20
Out22

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Os dias de chuva e tempestade, já não são só isso, agora têm nome, assim, em 20 outubro de 2022 quando vou à janela para ver como está o tempo, não vou só fazer isso, vou ver como está o Armand, très chic, meus amigos vestirmo-nos para enfrentar um dia de chuva, vento e algum frio é muito diferente de nos vestirmos para enfrentar o Armand, ou para namorar o Armand, ou um encontro de negócios com o Armand.