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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A meio

23
Nov20

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Ilustração  Lucija Mrzljak

 

Olhei a fotografia gasta e desbotada pelo tempo, tinha algumas nódoas no papel amarelado. Virei-a para ver se tinha alguma dedicatória. Uma letra cuidada e elegante bailava ainda no papel envelhecido. Querido, começava a linha escrita a azul fim de tarde, pelo meio algumas palavras que só eles sabiam o sentido, no fim, desta que te ama, a assinatura estava no pedaço já rasgado. 

 

As passadeiras de praia

Lugares de risco

20
Jul20

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Ilustração  Marie Mainguy

 

As passadeiras de praia são lugares livres da pandemia, onde o turista pode andar livremente sem máscara, mesmo que ande a meio metro de outra pessoa que não conheça, o bicho não gosta de praia, nem sabe nadar. A areia é uma enorme aliada e protege os olhos dos perdigotos que possam querer se alojar nesses orifícios. 

 

Uma passadeira de praia nunca poderá ser considerada um lugar de risco, a não ser que haja alguma tábua solta ou partida, onde possas dar uma topada com o dedão do pé. Ali é o lugar perfeito para caminhares devagar, devagarinho, correres, ou vires em parelha de duas ou mais pessoas. 

 

De cada vez que passas por ali, sentes que é só desta vez. Até ser a vez certa. Pode até ser viciante. Todos se compreendem naquele espaço estreito e comprido, se fosse num supermercado seria diferente, mas ali à beira do paraíso, onde o bicho foge de nós a sete pés, não há problema, nem funcionários para nos infectarem, nem malta que mora em bairros problemáticos, nem gente que anda de autocarro, nem grupos de festas clandestinas.  Todos os espaços públicos deveriam de ter uma passadeira de praia, para quê esperar pela vacina? Quando a passadeira de praia está a ter tanto sucesso.

 

 

Reality Show

28
Abr20

 

Pergunto-me que sentido fará em tempos de quarentena um programa de TV, onde todos estão fechados em casa e são filmados vinte e quatro horas por dia? Servirá para fazermos comparações com as nossas casas? Já todos sabemos que a primeira semana é óptima, a segunda aponta ao desequilibro, a terceira começa a ter laivos de loucura, à quarta passamos a deixar de querer saber da nossa fossa mental, à quinta queremos é que se abra o portão da herdade, estamos abertos a usar qualquer tipo de máscara, não importa que tenha florinhas, risquinhas, seja azul, ou branquinha, queremos é ir para a rua. Rua. Rua. Rua. Para além disto tudo, desconfio, que em certas casas haverá muito mais aventura do que naquela preparada de propósito para isso.  Criancinhas a pedir atenção, pais em teletrabalho, pais à procura de soluções para as contas ao final do mês, gente com saudades dos seus mais velhos, gente de idade bem entrada a pensar que é um desperdício estar a gastar o seu precioso e restante tempo fechado em casa. Como diz o outro "isto é gozar com quem trabalha" eu digo - Isto é gozar com quem está em casa.