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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Fiz um bolo de figos frescos, cortei o meu cabelo e o meu vizinho pôs-se a dançar

31
Jan21

Fiz um bolo de figos frescos, cortei o meu cabelo e o vizinho pôs-se a dançar. Fiz um bolo com figos frescos que foram colhidos no Verão passado, descongelei cinco deles e coloquei-os num tachinho com um pouco de açúcar amarelo e muita canela. Juntei duas chávenas de açúcar com quatro ovos, bati até estar uma massa esbranquiçada, juntei-lhes os figos, um pouco de azeite, alguma água quente e três chávenas de farinha. Meti no forno e esperei que o tempo passasse. Também voltei a cortar o meu cabelo, fiz-lhe um corte a preceito, agarrei na tesoura e pus-me enfrente ao espelho, dividi então o cabelo ao meio, e foi a eito. Está muito aceitável. Às onze e meia da manhã o meu vizinho colocou as suas músicas preferidas em alto e bom som, o homem tem setenta anos e vive sozinho - eu sei que lhe faço companhia quando dou alguns gritos - e então começou a dançar, provavelmente sapateado. Senti-me feliz. Ri com vontade. 

Um punhado de terra

24
Mai20

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Tenho um punhado de terra já exausta, cultivei tantas coisas nela e durante tanto tempo que anulei por completo a sua reprodução, fartei-me de a regar, mas a terra era sempre a mesma,  as culturas não nasciam, ou então cresciam raquíticas e sem sabor. Foi longo o período em que estive em busca de encontrar as soluções para que tudo aquilo tivesse um final fim feliz, culpava a terra, as sementes, a água, o Sol, o vento, a chuva, o frio. Nem me lembrava que a agricultora era eu, as escolhas eram as minhas, o tempo era o meu. Um dia fartei-me daquela terra e olhei à minha volta, havia tanta terra bravia por descobrir. Montanhas, vales, planícies. Porque continuava eu ali a tentar obter algo quando o que via não me levava a nada? 

 

dar e receber.jpg

 

Um punhado de pó,

um punhado de terra,

um punhado de vida,

por cada um - três actos.

 

Em cada acto uma verdade,

de trás para a frente,

em linha,

a coberto e a descoberto.

 

Um mundo por inventar,

para descobrir, 

ousar,

um punhado de tudo.

 

 

Ilustrações são de Hannah Lock