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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Envelhecer

27
Nov22

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  Ilustração Nelly Tsenova

Sinto que à medida que envelheço tenho cada vez mais necessidade de mudar, e quanto mais mudo, mais encontro razões para o fazer aqui e ali. Talvez seja pela visão de que agora o tempo urge, que é preciso descartar sentimentos e atitudes inúteis, existe agora em mim a vontade de querer escolher, coisa que sempre fui deixando para depois, torna-se agora claro que o depois encurtou, e em algumas decisões até deixou de poder existir. Não sei bem colocar em palavras, esta ânsia de querer existir, não é saudade, nem remorso, nem coisa a remoer que compare onde estou e onde poderia estar, é uma sensação mais terrena, como a sensação de viajar e voltar diferente, e querer ir outra vez, e mais outra, e a cada viajem uma transformação até ver onde é possível chegar. Como quem está esculpindo num corpo cada sensação que traz a mudança.

Fotografias em carteiras e no telemóvel

o amor e outras cenas

10
Nov22

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Eu não sou pessoa de ter fotografias na minha carteira, não sei a que mundo pertenço, certamente não é ao mundo das pessoas fofinhas e queridinhas. A fotografia de fundo do meu telemóvel é uma fotografia do meu cão. De todas as pessoas que conheço sou talvez a única que não faz declarações de amor aos filhos e ao marido nas redes sociais. 

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Para mim o mais importante é o mundo prático, não tenho sessões de fotografia de quando estava grávida, talvez duas fotografias, que nem sei onde estão, nunca fiz álbuns de fotografia para os meus bebés, nem me lembro de qual foi a primeira palavra que disseram, admiro as mulheres que se lembram disso, e as que têm vocação para coleccionar pormenores, guardei apenas algumas roupas das crianças, para mais tarde recordar. Tenho também desenhos feitos por eles e deixados por mim ao acaso nas gavetas dos móveis do meu quarto, guardo-os assim para me surpreender quando ando em arrumações, claro que os volto a deixar por lá.

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Eu sou assim ...de mais coisas práticas, de fazer bolos para por a casa a cheirar a conforto, de fazer almoçaradas e de dizer piadas, embora ultimamente tenha andado com o humor pela hora da morte, talvez seja da menopausa, que falta me fazem as hormonas. Sou mais de lavar e passar resmas de roupa, sou o lado prático, chato e exigente, às vezes também dou abraços, dou sempre a minha presença e quase nunca a minha fotografia, não gosto de me impor perante o amor. Amar é como Liberdade, preso deixa de ter sentido.

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Sou mais de dar tempo e ouvidos, não gosto de gente presa em fotografias, mesmo que as mesmas sejam de dias alegres, faz-me impressão vê-las ali paradas num só momento, gosto mais de tirar as fotografias de dentro de caixas e de redescobrir momentos. Não gosto de fotografias junto a dinheiro, as pessoas, mesmo que em formato papel, devem estar junto ao coração e não à razão.

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Gosto de fazer para ter, e de ter para dar, tenho lãs e agulhas...

 

As ilustrações são de Lucy Almey Bird

O que vou vestir para encontrar-me com o Armand?

20
Out22

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Os dias de chuva e tempestade, já não são só isso, agora têm nome, assim, em 20 outubro de 2022 quando vou à janela para ver como está o tempo, não vou só fazer isso, vou ver como está o Armand, très chic, meus amigos vestirmo-nos para enfrentar um dia de chuva, vento e algum frio é muito diferente de nos vestirmos para enfrentar o Armand, ou para namorar o Armand, ou um encontro de negócios com o Armand.

Menopausa

e hoje é o dia mundial

18
Out22

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Fotografia Andrzej Berłowski

Meno encerra a ideia de mês, menstruação. Pausa é a ideia de que terminou por um tempo. Menopausa é a ideia de que encerramos o mês, a menstruação e fazemos uma pausa naquilo que éramos, voltamos então outras depois da pausa, para nos reencontrarmos connosco, cada uma em si, por isso o processo é tão diferente de mulher para mulher, apesar de semelhantes os sinais e os sintomas são dependentes daquilo que somos. 

Hoje fui à consulta de planeamento familiar, no SNS, que é onde vou desde sempre, desde há uns meses que não tenho menstruação, não sinto saudades disso, sempre foi um fardo para mim ter de andar com um penso nas cuecas, dores de costas, dores de cabeça, dores de barriga, com a preocupação em sujar a roupa de sangue, na escola, no trabalho, nos transportes públicos, em férias, um desconforto de quase uma semana por mês, durante mais de quatro décadas.

Antes da consulta com a médica, fui atendida pela enfermeira, que me pesou, mediu a tensão e fez-me alguma perguntas sobre como me sentia de entre outras, não sinto calores, nem insónias, apenas tenho em mim que sou outra, sou agora uma outra que não consegue controlar as emoções, que até sente vontade de chorar, mas não choro, ou melhor como disse à  enfermeira, eu não choro, mas é como chorasse por dentro, uma vezes estou bem outras não, quando não estou bem, espero que passe, que é o que eu faria se tivesse que coexistir com uma pessoa temperamental, dá-me para comer, dá-me para ser preguiçosa, dá-me para não ter paciência. Pois, disse-me ela, sabe são as hormonas, que se vão e fazem-nos tanta falta. Eu sei, eu antes não sabia o que tinha, agora eu sei: eu tenho menopausa. 

Escolhi esta fotografia para ilustrar este tema, porque é assim que me vejo, a perder as cores que tinha, a transformar-me, muito mais consciente que na transformação da adolescência, será uma transformação sem volta, apenas de um caminho, mais curto, vou ter de aprender a conhecer-me nesta nova fase, há coisas das quais já não preciso, não preciso de comer tanto, nem de me preocupar tanto, há outras que tenho de mudar, tenho de mudar a alimentação, exercitar os músculos, porque a perda muscular nas mulheres começa aos cinquenta anos, assim vou nascer, talvez como as cigarras que depois de dezassete anos debaixo de terra nascem para viverem de forma alucinante o seu ultimo  e primeiro Verão a cantar ao sol.