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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

#diariodagratidao 09-06-2019

09.06.19, Alice Alfazema
  Fotografia de José Macedo       Eu não quero nunca ficar indiferente,  sentir-me vazia e sem memória. Quero ter sempre alma de criança, sorriso maroto e alegria de ser.      Quero deixar sementes e podas daquilo que fui, mesmo que eu seja breve e leve neste mundo. Tenho trabalhado arduamente para isso, não quero colher nada, quero que desfrutem de mim quando eu me for, que se lembrem, que me afaguem na memória e me busquem na praia ou numa árvore qualquer, no cheiro da (...)

Vou estender as emoções

01.06.19, Alice Alfazema
  Já é Junho...     O tempo molda-nos o corpo e põe-nos moles com este calor, é uma moleza profunda, que vem do fundo do ser, e deixa-nos sem acção. É assim como aquelas pessoas que nos sugam a energia mesmo sem querermos, porque não conseguimos fugir delas fisicamente, tal como quando estamos debaixo do calor, não que essas pessoas sejam um sol, mas antes um buraco negro, porque a sua energia é densa.       Vivemos num espaço reduzido, onde caminhamos lado a lado, sem (...)

Que gira

29.05.19, Alice Alfazema
Uma pessoa corta o cabelo vai para três semanas, algumas pessoas deram conta disso, poucas, mas repararam, e hoje finalmente recebo um elogio pelo corte do cabelo. Qual a causa caros leitores? Lavei a cabeça de manhã e sequei o cabelo com o secador. Porquê? Porque cada vez que acordo tenho um penteado novo, e às vezes não é muito bonito, e depois não me apetece ajeitar os fios rebeldes e fico assim com uns altos de lado, que não são propriamente delicados à vista mais exigente. (...)

#diariodagratidao 29-05-2019

29.05.19, Alice Alfazema
  Ilustração Ayako Tsuge     Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir (...)

Conversas da escola - Não sei

22.05.19, Alice Alfazema
- Quero um chá, estou muito mal disposto. - Toma lá, pões o açúcar, mexes bem e vais bebendo aos poucos, vais ver que ficas melhor. O miúdo leva a chávena e senta-se numa das mesas, no entanto diz a uma da minhas colegas. - Fiquei sem perceber se ponho o açúcar debaixo da língua, mexo o chá e bebo, ou se ponho o açúcar no chá, mexo e bebo.

Conversas da escola - Saudades

21.05.19, Alice Alfazema
Saio do autocarro e subo a ladeira para ir trabalhar, é manhã cedinho, há um fresco bom no ar, é como se as Árvores  me cumprimentassem ainda cheias de orvalho, duas rolas estão no fio da electricidade, às vezes voam até ao topo das árvores. Olham-me. Há um canto de pássaros que paira no ar. Carrego a minha mala ao ombro, está pesada, na mão levo a minha lancheira colorida com o almoço. Pressinto passos apressados atrás de mim, é como se eu conhecesse os passos e as vozes (...)

Conversas da escola - Você foi uma criança feliz?

20.05.19, Alice Alfazema
  Ilustração Irisz Agocs   - Olhe lá Contina... A rapariga mostra-me a zona do cotovelo toda esfolada e com algo que me parecem pedrinhas. - O que é isso? Já desinfectas-te? Parecem pedrinhas. - Já desinfectei, isto parece que é pomada ou pus. - Sabes de uma coisa? Quando eu era miúda andava sempre com os joelhos esfolados, e quando  a ferida já estava a criar carepa, zás, caía outra vez e lá começava tudo de novo. Nós divertia-mo-nos a espremer o pus. - Você foi uma (...)