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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Almareada

31.05.20, Alice Alfazema
Ilustração Mic Salvagno   E eu que tantas vezes tive a oportunidade de comer e não comi, porque dizia que não gostava, fiquei agora a salivar por lembranças, mas também por sabores, quem sabe não vá passar a gostar.   Ontem comi berbigão da praça. Guardei-lhe o caldo, seus sucos misturados com cebola picada, alho, coentros e azeite. Nesse caldo, cairá, logo mais, o carolo de milho, que farei por almarear* de tanto o mexer com a colher de pau, contrariado-lhe as bolhas e os (...)

Um punhado de terra

24.05.20, Alice Alfazema
  Tenho um punhado de terra já exausta, cultivei tantas coisas nela e durante tanto tempo que anulei por completo a sua reprodução, fartei-me de a regar, mas a terra era sempre a mesma,  as culturas não nasciam, ou então cresciam raquíticas e sem sabor. Foi longo o período em que estive em busca de encontrar as soluções para que tudo aquilo tivesse um final fim feliz, culpava a terra, as sementes, a água, o Sol, o vento, a chuva, o frio. Nem me lembrava que a agricultora era (...)

Fruta

20.05.20, Alice Alfazema
  Se há coisa da qual não abdico é de fruta, todos os dias como fruta, gosto de ver as fruteiras cheias dando cor à cozinha, talvez goste menos de maçãs, a que chamo de pêros, para mim maçãs são as reinetas e as riscadinhas, tudo o resto são pêros. Comer fruta é um ritual mundano, que nos trás todo o sabor conseguido pelos raios de sol, acalenta o paladar, tranquiliza uma refeição, é tema de conversa, é prenda de amigos. Quanto melhor a fruta maior é a felicidade ao (...)

Diário dos meus pensamentos (44)

02.05.20, Alice Alfazema
    Eu não estou cansada destes dias, apenas não quero voltar a viver da forma como vivia antes deles. Não quero, já não me revejo, nem ambiciono. E isto é um desejo muito forte, que tenho de trabalhá-lo e de batalhar bastante para conseguir alcançá-lo. É um caminho que estou a percorrer há alguns anos, em que apesar de demonstrar ser essa a minha vontade, tenho tido sempre obstáculos que não consigo ultrapassar, alguns deles sei que existem, mas são de (...)

Diário dos meus pensamentos (34)

22.04.20, Alice Alfazema
  A  portaria cheirava a mofo. A escola estava vazia, não só há um afastamento social, como também há uma anulação das vozes, é como se as pessoas poupassem em palavras para gastarem em pensamentos. As nêsperas estão todas depenicadas pelos pássaros, as avencas levaram um desbaste valente, hão-de crescer, como crescem sempre. Os pombos continuam a procriar, a árvore de maçã riscadinha está cheia de flor, este ano talvez vingue alguma maçã. Alguns pais vieram buscar os (...)