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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

ūüíč

08
Nov19

amigos.jpg

 

Somos um monte de retalhos, cosidos ao acaso, coisas do dia, da vida, da loucura. Somos tristes acompanhados, somos alegres sozinhos. Somos o que os outros não sabem. Temos medo e audácia dentro de nós. Mas há quem saiba nas entrelinhas esconder os recantos do sonho para que ele desperte num dia de necessidade.

 

Mal nos conhecemos
Inaugur√°mos a palavra ¬ęamigo¬Ľ.

¬ęAmigo¬Ľ √© um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa m√£o!

¬ęAmigo¬Ľ (recordam-se, voc√™s a√≠,
Escrupulosos detritos?)
¬ęAmigo¬Ľ √© o contr√°rio de inimigo!

¬ęAmigo¬Ľ √© o erro corrigido,
N√£o o erro perseguido, explorado,
√Č a verdade partilhada, praticada.

¬ęAmigo¬Ľ √© a solid√£o derrotada!

¬ęAmigo¬Ľ √© uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espa√ßo √ļtil, um tempo f√©rtil,
¬ęAmigo¬Ľ vai ser, √© j√° uma grande festa!

 

 

 

Alexandre O'Neill

 

Liberdade

02
Nov19

liberdade.jpg

Ilustração Scott Kahn

 

 

Escrevo este texto no dia 20 de Outubro de 2019, é Domingo e está sol, ontem foi um dia de chuva intensa. Hoje o dia amanheceu luminoso, manso e fresco, levantei-me e tomei o pequeno-almoço em casa, nada de especial, pão com queijo-fresco de ovelha e um sumo de frutos vermelhos. Fomos depois beber um café à beira-rio.

 

Estou agora em frente ao rio, num sítio tranquilo e cheio de árvores, sento-me enquanto bebo o meu café, à minha frente o rio brilha, com aquele brilho de felicidade, algumas pessoas andam a remar em pequenos barcos ou nas pranchas praticando desporto e usufruindo daquele espaço, na praia um homem enche baldes grandes com água do rio e carrega-os para dentro duma carrinha, uma mulher corre atrás do cão, as gaivotas assistem impávidas e serenas, um outro homem tira água de dentro de um bote, prepara-se para ir para a pesca, a esplanada vai-se enchendo de gente.  Todos falam baixo, consigo ouvir as folhas secas a baloiçar com o vento. 

 

Vejo, ent√£o o verde da Serra, as √°rvores e as rochas cravadas naquela¬†terra vermelha, ao longe uma curva com a cidade, o rio que brilha intensamente, sinto em mim todo aquele fluir, o azul das ondas, a mar√© vazia, a terra vermelha, o c√©u l√≠mpido, a outra margem do rio, as gaivotas que voam, o motor do barco, o sabor do caf√© misturado com o a√ß√ļcar, as pessoas que falam tranquilamente. A paz da manh√£.¬†

 

Sou então uma privilegiada, que aprecia o rio e o espaço à minha volta, sem medos, nem fome, nem guerra, podendo estar, sem pensar em ir - isso é Liberdade. 

 

 

 

Escrevi este texto para definir Liberdade, quem mo pediu foi a MJP, do blogue Liberdade aos 42, a quem agrade√ßo o convite. √Č, tamb√©m, interessante e enriquecedor vermos o modo como cada um perspectiva¬†a Liberdade e o que podemos aprender com a experi√™ncia do outro.

Obrigada MJP

 

 

Micro contos - A procura

21
Jul19

a procura.jpg

 

Ilustração Marly Gallardo

 

Que procuras tu quando te escondes na praia? Debaixo de um chapéu de sol, enquanto enterras os teus pés para sentires a areia fresca que está por baixo da escaldante. Levas contigo os teus pensamentos para todo o lado, mesmo que te vistas de modo diferente e a paisagem seja outra daquela que estás habituada. Mudas-te de cor de cabelo, e fizeste umas unhas coloridas, mas nada mudou. O que sentes é exactamente o mesmo que sentias quando tinhas o cabelo de outra cor.

 

Escrever

14
Jun19

lavanda.jpg

 

Ilustração Linda Jacobus

 

Para dizer que se gosta de escrever n√£o basta relatar uma conversa, descrever um s√≠tio ou um estado de alma. Escrever √© muito mais que isso, √© por nas frases peda√ßos de n√≥s, sensa√ß√Ķes e cheiros, √© conseguir que os outros percebam atrav√©s das nossas palavras o que vemos sem os olhos.¬†

 

Nem √© preciso um texto longo, ou uma frase elaborada, √© antes como uma pintura simples, s√£o leves pinceladas que comp√Ķem¬†a vis√£o das palavras e chegam ao alcance do outro, n√£o como um relat√≥rio, mas antes como uma prosa cantarolada na brisa de um pensamento.