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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A grande desmatação de 2018

Abril 02, 2018

Alice Alfazema

Na Universidade do Algarve, fomos todos convocados pelos Serviços Técnicos, e nossas famílias, para participar na acção de voluntariado que teve lugar no passado sábado, de “limpeza de mato e recolha de material sólido combustível” no campus de Gambelas. “Material sólido combustível” – é assim que agora se designam as árvores e outra vegetação e seres que neles habitam. Pobre pinhal do campus de Gambelas!

 

As árvores arbustos e ervas que nos pedem para “limpar”, são parte de um ecossistema, têm variedade, albergam insectos, répteis e outros seres; as aves dependem da manta morta do solo, dos arbustos e das copas dos pinheiros para repouso e nidificar. As copas dos pinheiros reduzem a luz que limita a vegetação que cresce no solo. A manta morta que cobre o solo, é precisa para regenerar todo o sistema. Estamos na época do ano mais sensível para a procriação da maior parte destas espécies vegetais e animais, em particular as aves, que já começaram a construir os ninhos. O ruído invasivo das motosserras e roçadeiras que se tem ouvido nos últimos dias não deixa dúvidas sobre o que está a acontecer aos pinheiros e restante vegetação e seres que neles habitam e deles dependem. É a contribuição da Universidade do Algarve para o salvação da floresta em Portugal!

 

 

 

Texto escrito por  (para ler o resto do artigo clicar sobre o nome)

 

 

Na escola onde trabalho também acontecem podas que me fazem lembrar os cabides onde colocamos o casaco quando o despimos, até já sugeri à diretora que colocasse lá a roupa que temos nos perdidos e achados, também uma colega me questionou se eu agora era defensora das árvores, após o corte radical de umas quatro árvores que foram feitas em lenha, pareciam formigas na recolha dos troncos, com  a raiva que tinha na altura respondi-lhe que deveriam morrer todos com doenças dos pulmões, daquelas bravas que fazem doer bastante. A preocupação dela era com o lixo, assim já não teria de varrer tantas folhas.

 

Ao todo desde o principio deste ano lectivo já foram mais de seis árvores cortadas pela raiz, que eu desse por isso ninguém ficou chocado com nada, alguns até se alegraram e gritaram: finalmente. Que mundo de bosta estamos a construir? E já agora que disciplina é aquela que se diz serem Ciências Naturais? É sobre o quê precisamente? 

 

Como é que num raio de uma escola e numa universidade se aplicam ensinamentos destes? 

 

Na rua onde moro as árvores foram podadas como se fossem cálices, os ramos ao alto, apenas na vertical, estou aguardando a chegada das folhas, devem romper lá no cocuruto dos ramos. Certamente deverão sentir-se envergonhadas com tamanho penteado.

 

As árvores não são apenas umas coisas que têm um tronco e uns ramos, são a casa de inúmeros animais, são vida:

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

Conversas da escola - Como se lava uma sanita?

Setembro 06, 2017

Alice Alfazema

Há onze anos, quando vim trabalhar para a escola, tinha uma ideia idílica sobre a escola, pensava então que poderia fazer a diferença, que estava ali porque fazia parte de uma equipa. Assim um belo dia, caiu-me pela primeira vez a ficha, estava eu sentada na secretária, num bloco de doze salas, quando uma jovem sai de uma sala e me diz: a professora mandou-me perguntar-lhe por que é que está aqui a trabalhar, estou aqui a trabalhar porque fiquei desempregada, ah, ela disse-me que se eu não quero estudar, depois tenho que arranjar um emprego assim. E eu fiquei a olhar para a miúda com um ar aparvalhado até ela voltar novamente para a aula. Depois mais nada.

 

Quando pensamos em escola, pensamos em educação, pois é, por lá há muita, há com má e sem má. Temos neste espaço diferentes personalidades, há muita gente boa e gente menos boa, como em todo o lado, dirão alguns e é verdade. Aos bons agradeço o que me dão quando preciso de motivação, quer seja em palavras ou em sorrisos e até em mimos, aos outros agradeço na mesma porque me fazem reflectir em como não quero ser assim.

 

Não me lembro da primeira vez que tive de lavar as sanitas, algumas até desentupi-las, varrer, lavar, esfregar, carregar baldes de lixo...e voltar ao mesmo, quem tem crianças em casa sabe como é, agora multipliquem isso por mais de oito centenas. Enquanto lavava as sanitas era ainda capaz de ter de retirar as luvas, atender o telefone, ir dar um recado, ou ver outra situação qualquer e depois voltar a calçar as luvas e lavar o resto das sanitas, entretanto as pessoas iam entrando e saindo da casa de banho como se nada fosse.

 

Num outro momento da minha estadia na escola pedi opinião a uma professora sobre o facto de eu querer entrar na faculdade, ao qual obtive a seguinte resposta: inscreva-se, inscreva-se, que eles agora estão a aceitar toda a gente. E não havia mais nada a dizer. Calei-me. Agora que já terminei a licenciatura estou no bar a abrir carcaças e a por manteiga no pão, não tenho nada a acrescentar pois tenho uma faca com uma serrilha muito boa e a manteiga é dos Açores.

 

Num outro dia ouvi alguém dizer que estava a encorajar os miúdos a estudarem para depois não irem varrer ruas. Portanto esse tipo de emprego é um castigo para quem não estuda, o valor do trabalho é uma coisa mítica, no sentido de que valorizamos o prestigio e não a acção em si. Por isso penso que o livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, deveria  ser de leitura obrigatória na escola. De certo que mudaria muitas mentes.

 

Mais uma vez... quando estávamos a falar sobre o valor do ordenado mínimo, de como era difícil viver com tal quantia, alguém me diz: e acha que para nós não é difícil? respondi que no mínimo alguém tem de pagar trezentos euros de casa e o que lhe sobra é muito pouco para as despesas básicas de sobrevivência... 

 

Sei por verificação ao longo dos anos em que estou neste mundo que as pessoas com menos posses são as mais solidárias, são capazes de repartir e queixam-se menos das agruras da vida. Se alguém se sentir lesado por aquilo que escrevi, pensasse duas, três vezes antes de me dizer, porque em mim essas palavras criaram mossa. Olhar para além de, é um exercício que se aprende com uma certa facilidade.

 

Existe uma desvalorização profissional que se acentua de ano para ano, olha-se assim para esta profissão como algo dispensável. Um cuidador nunca é um ser dispensável. Esta visão redutora tem de ser alterada. Se eu poderia arranjar um outro emprego? Poderia, mas não era a mesma coisa. Não teria o carinho dos miúdos, os risos fáceis nem aquela azafama de vida que acredita no futuro, a isso chama-se: Esperança.

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

O meu pequeno mundo

Julho 29, 2017

Alice Alfazema

Leio num site de uma câmara municipal, que uma escola primária vai ser ampliada e vão ser criados novos espaços para que haja uma reorganização das diferentes áreas funcionais inerentes à escola. Que bom. Que bom que é ler e saber que vão criar um espaço para o pessoal não docente (esta parte podem ler de um modo sarcástico). Sendo que se até aqui não havia um é mau, muito mau. Se havia e agora é necessário fazer outro espaço é sinal de separação de hierarquias, termo muito importante na função pública.

 

Mesmo assim continuo a questionar-me, sendo tão poucas as pessoas a trabalharem numa escola, entre elas, auxiliares e professores/educadores de infância é urgente haver um espaço de separação de pessoal? Existirão em outras empresas salas para chefes, salas para chefinhos e salas para outros. É que já me chegou aos ouvidos coisas do tipo (quando as pessoas que trabalham no mesmo local estão todas na mesma sala e alguém diz): nem aqui podemos ter privacidade. A privacidade é uma coisa assim do foro intimo, não profissional, a não ser que envolva assuntos que devem ser discutidos em outros locais que não seja a sala de convívio do pessoal, vulgo trabalhador seja ele de que categoria for.

 

Aqui neste meu pequeno mundo é ainda muito importante a separação profissional de forma a demarcar um território há pouco conquistado, porque há bem poucos anos éramos quase todos analfabetos e não nos distinguíamos grandemente uns dos outros. 

 

 

 

Alice Alfazema

Naquele tempo

Julho 22, 2017

Alice Alfazema

 

Ilustrações  Rebecca Cobb

 

 

 

 

 
 
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramago & coisas assim
eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu:
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes,
chamando do fundo do meu coração.
 
 
 
Manuel António Pina, in Todas as Palavras, ed. Assírio & Alvim 
 
 
 
 
Alice Alfazema
 

Conversas da escola - Começar de novo

Maio 22, 2017

Alice Alfazema

Dois miúdos já grandotes aproximam-se do balcão, um traz um baldinho de granola e põe o dedo em riste:

- Dê-me aí uma colher.

, dê-me aí? Mas o que é isto... isto aqui não é a tasca da esquina, nem ouvi: bom-dia, se faz favor...

O que estava com ele segreda-lhe qualquer coisa ao ouvido e ele diz-me:

- Vamos começar do princípio?

- Então vamos lá...

- Bom dia, Dona Alicinha! Pode-me emprestar uma colher se faz favor?

 

 

 

Alice Alfazema

Conversas da escola - 8 h

Abril 20, 2017

Alice Alfazema

Entro na escola, são oito horas da manhã, vou para o bufete. Lá dentro tenho um balcão, na frente desse balcão existe uma grade rendilhada, quem está do lado de fora não me vê, enquanto eu vejo tudo o que se passa nesse lado. No lado de fora estão mesas e cadeiras é o espaço polivalente. Nessa hora estão muitos miúdos sentados nelas, umas vezes nas cadeiras outras nas mesas. As cadeiras dançam, são arrastadas, saem de um lado para outro, num vai-e-vem de brincadeira. Abro a porta do meu esconderijo, eles olham para mim, digo alto e a bom som:

- Não estamos em Torremolinos!

Ninguém responde, e as mãos começam a arrumar as cadeiras. Fecho a porta e dá-me vontade de rir. Rio. Gosto de rir sozinha. 

 

 

Alice Alfazema

Porque não ficas admirada com esta notícia Alicinha Contina?

Abril 09, 2017

Alice Alfazema

Conversas da escola - Assumir os erros

Janeiro 19, 2017

Alice Alfazema

- Contina, preciso de falar consigo em particular.

- ...

- Sabe...eu ontem não agi bem, quero que me desculpe(...)

- Está bem, estás desculpada...

- Perdoa-me?

- Sim...eu gostei muito desta tua atitude, de vires pedir desculpa(...)

- Pois, temos que saber assumir os nossos erros.

 

 

 

Alice Alfazema

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