Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Um buquê na varanda

06
Mar24

IMG_20240306_133946.jpg

Hoje há hora do almoço andei a turistar pelos mesmos caminhos de sempre, à coca de novos pormenores que me tenham passado despercebidos, e eis que do nada olho para cima e vejo este belo buquê de flores amarelas, vulgarmente chamadas de azedas, os mais velhos certamente se lembrarão de lhes dar umas boas trincas para sorver esse maravilhoso elixir da liberdade de uma brincadeira de infância. Mas o que aqui me trás não é o sumo desse talo, mas sim o nosso mundo e o que realmente vemos em cada dia.

Falava eu com a minha médica, que me dizia que a quantidade de gente que lhe aparece no consultório e se diz deprimida com o mundo e o futuro é tanta, que ela não tem mãos a medir, nem sabe qual o resultado futuro desta pandemia de tristeza comum. Aprecio eu, na generalidade dos comentários e de opiniões que a grande maioria das pessoas, preocupa-se com o Mundo, no entanto, não sabe apreciar ou viver no Seu mundo, ou seja naquele que lhe coube na rifa, algo tão simples transforma-se num pesadelo coletivo, lembrando a menina gotinha de água, que descobriu que havia mais gotas iguais a ela e que juntas faziam um oceano, ou melhor o que parece pouco se torna muito, assim é  impossível mudarmos sozinhos o Mundo, é energia gasta desnecessariamente, mas conscientemente conseguimos mudar o nosso mundo, tarefa quase nula numa perspectiva global, mas somando e somando a coisa adquire dimensão, e isso é o que realmente importa, do nada se faz a diferença. 

IMG_20240306_211937.jpg

Podem ler o conto da Menina Gotinha de Água, de Papiano Carlos, aqui.

Para saber quem foi Papiano Carlos, ver aqui.

Autoestima

e Liberdade

27
Mai23

As mulheres

 

A auto-estima está intimamente ligada ao sentido de liberdade,  não se tem auto-estima estando preso a algo ou a alguém, a tentação e a decisão de começar a mudança apenas em si próprio muitas das vezes não surte o efeito desejado, o que leva a uma maior insatisfação pessoal, talvez revolta surda  onde desembarcam as recaídas e a ressaca se agiganta monstruosamente, num medo gélido, congelando o mais ínfimo músculo, paralisando qualquer reacção, e mesmo fazendo os esforços necessários, e lendo isto ou aquilo, aplicando esta e aquela opinião,  vai aumentando o medo de falhar, não há nada, nada há que faça mudar isso, a não ser a quebra abrupta pelo algoz que nos põe nessa situação. 

O exercício primeiro é feito de fora para dentro, porque é de fora que vem o estimulo, são opiniões de outros, gestos subtis ou bruscos, linguagem não verbal assimilada, identificar, analisar, reflectir, acção. Como se corta uma corrente? Com um gesto, com a acção. Como se sabe que resulta? Quando se sente no corpo a sensação de Liberdade.

  

Ilustrações do livro “Meu corpo, minha casa”, de Rupi Kaur

A linha da vida

Saúde mental

10
Out22

a linha da vida.jpg 

Ilustração  Nicky Photo et création numérique

 

«Somente a luz que cai continuamente do céu fornece a uma árvore a energia que crava profundamente na terra as suas poderosas raízes. A árvore está na verdade enraizada no céu.»

Simone Weil, A Pessoa e o Sagrado, p. 53

A frase acima foi surripiada do Delito de Opinião - desconhecia a história de vida autora, mas já andei a pesquisar,  e fiquei surpreendida com a missão de vida desta mulher, que pela sua breve viagem por este mundo escreveu tanto e viveu ainda mais. 

Há uma linha ténue entre a vida e a morte, entre a saúde e a doença, é certo que muitos factores externos ao individuo contribuem para acentuar a diferença entre a saúde e a doença, mas também é certo que depende em muito dos factores internos existentes no individuo, sendo assim a linha que separa as duas não é mais que a junção das duas, constituindo discussão desde há muito, se por um lado existe a ideia de que o individuo é o centro, e que parte dele toda a acção, há quem se apoie que isso depende de onde vem a acção externa que influencia o individuo.

No dia instaurado para chamar a atenção para a importância da nossa saúde mental, podemos concluir que apesar de termos hoje mais meios para sermos mais felizes, para vivermos mais anos com saúde, somos confrontados todos os dias com uma panóplia de informação que nos leva a entrarmos em confronto com os nossos sentimentos e com as nossas acções, se por um lado sentimos vontade de exercer a nossa vontade, por outro somos impedidos de aplicar aquilo que queremos. 

Sem dor física que suporte a evidencia de estar-se doente, a saúde mental é muito difícil de diagnosticar e de ser aceite como doença, quer pelo próprio, quer por aqueles que o rodeiam. Enquanto a dor emocional cresce é possível que também a sensação de vazio se instale e mine toda e qualquer vontade de sair daquele estado, e por vezes é quase impossível voltar a si, sem retorno, num desvio permanente, como uma curva sem fim à vista, no fundo a manutenção da nossa saúde mental deverá fazer-se sempre em boa companhia. Tal  como na visão de Simone Weil, a árvore está enraizada no céu, assim também nós estamos enraizados na sociedade, e como o céu nem sempre é límpido, nem sempre cinzento, azul, escuro ou claro, numa visão simplista o céu demonstra aquilo que somos e o que podemos ser, independentemente dos culpados serem factores externos ou internos.

 

 

 

 

 

As mulheres e a depressão

07
Jul16

Um dia destes, alguém me confessou que estava muito cansada, que só tinha sono, e que o que mais queria da vida era dormir. Mas, não consigo, eu deito-me muito tarde, fico a fazer as coisas. Disse-me que já tinha deixado os comprimidos, mas que tinha voltado a tomá-los, acha que assim fica melhor, que os problemas que tem não são grandes, mas que lhe parecem enormes.

 

É depressão diagnosticou-lhe o médico. Eu que me dedico ao estudo da causas sociais, digo que o que ela padece é o síndroma da super mulher, agravado pelas pessoas que se colam a si, e são os filhos, o marido, a cadela, a casa às costas, os vidros por limpar, a roupa por passar, o emprego, as amigas que sabem fazer tudo muito bem, as colegas que são verdadeiras fadas do lar, a sociedade, a idade, a menopausa, a falta de férias, a baixa autoestima, a cultura portuguesa, o baixo rendimento salarial.

 

A medicação encolhe na sua mente os problemas, a ansiedade diminuí, dá-lhe asas e leva-a para o limbo das soluções. Flutua. Quer dormir. Muito. Para esquecer. Para descansar. Para poder viver: livre.

 

Quantas estão nesta situação? A escolha da vida que temos é um cliché.

 

 

 

Alice Alfazema