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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O pinheiro

29.08.13, Alice Alfazema
A aranha subiu o tronco seco e nodoso do velho pinheiro. Lá em cima um ninho, quatro ovos lá dentro. O formigueiro junto às raízes fervilhava de movimento, as provisões para o Inverno eram levadas a um ritmo estonteante. Uma cobra deslizou pelo tronco velho e veio aninhar-se nas raízes que sobressaiam da terra. No dia seguinte apenas cinzas.   Alice Alfazema

Belarmina

15.08.13, Alice Alfazema
O marido saiu de casa, não deu satisfações, levou as suas coisas e desapareceu. Ela chorou durante uns dias, depois reconsiderou e começou a pensar mais em si. Mudou a forma de vestir, começou a praticar desporto. Hoje desceu as escadas com os seus mínis calções amarelos florescentes e a blusa curtinha verde alface, ainda se nota alguma celulite, mas está a melhorar. Até lhe dizem que ela e a filha parecem irmãs. Foi correr para a estrada mais concorrida da zona. Que se lixe o calor.

Heranças

11.08.13, Alice Alfazema
Sebastiana subiu os degraus do autocarro a custo, não entendia porque tinham de ser tão altos. As suas costas faziam uma curva que lhe dava um ar atarracado, herança da monda do arroz. Nunca teve férias, nem dias de descanso.    Alice Alfazema

A mulher da mercearia

06.07.13, Alice Alfazema
No bairro abriu uma mercearia, coisa pequena. Com pão quentinho duas vezes por dia. Queijo fresco e legumes da zona. A mulher da mercearia mora no bairro, é nova, magra e nunca dizia bom-dia. Mas o negócio transformou-a. Tornou-se sorridente, até trata alguns clientes por tu, numa intimidade até então desconhecida. Os dias passam. No bairro a calmaria do costume. Passou um mês. A porta fechou. Nada disse aos clientes. Nem um bilhete na porta. Nada. Hoje, a mulher da mercearia passa (...)