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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Desatentos

04
Jan22

orquideas.jpg

Fotografia Ondřej Prosický

Era uma vez um caminho que se vestia de musgo durante o inverno, ao longe fazia lembrar o veludo mais fino e delicado  que era vendido nas melhores lojas, por cima dele o orvalho deixava pérolas que se evaporavam ao longo da manhã, alguns insectos bebiam delas com delicadeza ímpar, e no meio daquele tapete um rasgo estragou aquele manto, uma pequena semente espreguiçou-se e duas folhas ergueram-se ao céu. Ao longe um pássaro cantou. 

 

Exótica e esplendorosa,
a orquídea é flor bizarra
que nos deixa intimidados.
Porque é que a mãe natureza
pôs nela tantos cuidados?

É linda como as mais lindas
mas não é nada modesta:
sabe ser a preferida
para uma noite de festa?

Mas as outras flores singelas,
sendo acaso menos belas,
não precisam ter ciúme.

Que afinal a natureza,
se às orquídeas deu beleza,
retirou-lhes o perfume.

 

Poema de Rosa Lobato Faria

 

Já nasceu

Contos de Natal

19
Dez21

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Lá fora as folhas que restam das grandes árvores caem apressadas, depois levadas pelo vento rolam velozes pela estrada até se amontoarem junto aos lancis formando assim tapetes dos mais variados castanhos dourados,  de longe a longe vem andando gente pela rua e fazem-se ouvir os estalidos sob os pés, aos poucos as folhas vão-se materializando em pó, elevando-se em partículas e desmaterializando-se do corpo que lhes resta. Regresso então ao livro com a capa vermelha e as letras douradas, e recordo mais uma vez a história contada há tanto tempo sobre um nascimento em Belém, uma história que marcou a diferença em muitas gerações e decisões, e que tem servido de exemplo, que nos anima e nos faz reunir anualmente em família, coloco os óculos e sigo as letras: e eles caminhavam seguindo a brilhante estrela, montados nos seus camelos tinham vindo de muito longe para ver o nascimento do filho de Deus, guiados pelos sonhos e querendo um mundo melhor, trouxeram presentes simbólicos de paz e prosperidade, ao longe avistaram a cabana e deixaram de sentir  o cansaço dos dias em viagem, os animais parecendo que pressentiam a chegada que se adivinhava perto aligeiraram o passo sem que nada lhes fosse dito, num ápice chegaram à cabana que se destacava na paisagem como se fosse um pequeno palácio rupestre cheio de pormenores delicados, duas pequenas árvores ladeavam-na e os seus ramos pareciam abraçados por cima da cobertura deixando algumas folhas a cobrir metade de uma parede, um ninho desocupado permanecia ainda num dos ramos, ao centro uma porta de entrada muito estreita deixava antever uma luminosidade fraca que alumiava o lugar, desceram de cima dos animais e amarraram os camelos nas árvores, entrando por ali adentro sem se fazerem anunciar. Lá dentro viram um homem e uma mulher, que trazia carinhosamente ao colo o seu recém-nascido, um burro e uma vaca aqueciam o lugar, fascinados cumprimentaram-se, e deram as boas vindas àquele Ser minúsculo, quiseram vê-lo de perto, a mãe desenrolou o pequeno corpo e mostrou-o, ficaram ali a olhar tentando recordar o sonho que lhes tinha levado até ali, acreditavam que aquele Ser haveria de mudar o mundo, um deles perguntou-lhes como se chamaria o bebé, foi-lhes dito: Maria. 

5000

22
Dez20

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Ilustração Olga Demidova

 

Era uma vez uma estrela e um estrelo que viviam no profundo azul do espaço, utilizavam a sua luz para emitirem as suas emoções e comunicarem um com o outro, assim mesmo estando longe pareciam unidos por aquilo que sentiam. Não utilizavam sorrisos, nem sabiam o que eram abraços, os seus sentimentos eram transmitidos através da canalização de uma energia mental que poderia ser utilizada sem limites. Uma vez de cinco mil em cinco mil anos sentavam-se na Lua, quando ela estava em quarto minguante e aí tocavam-se levemente para poderem adquirir um outro brilho, nunca podiam estar mais de dez segundos juntos, porque podiam desaparecer numa explosão de cores, apesar de saberem que isso poderia ser um fim majestoso e unificá-los, preferiam separar-se e iluminar cada um o seu espaço. Então, num repentino clarão de luz os dois separaram-se deixando cada um rastro de luz violeta que se esvaiu em diversas direcções dando origem a mais estrelas e estrelos minúsculos que tentavam encontrar a melhor forma de iniciar o seu caminho, seria longa esta viagem, alguns teriam sucesso quando encontrassem o seu brilho, saberiam o que fazer com ele e o espalhariam a outros, numa dinâmica perpetuada no rendilhado nocturno.

 

 

 

Inverno branco

09
Dez20

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Fotografia Daisy Gilardini

 

Era uma vez uma foca branca, tão branca como a alva neve, fofa como os flocos que se amontoaram no velho glaciar meio desfeito, nasceu duma foca cinzenta, que não sabia quem bem quem era o pai da sua cria, eram uma família disfuncional, a mãe saía durante longos períodos para conseguir trazer-lhe algum peixe, e o suposto pai andava por ali a fazer olho grande às outras fêmeas. De vez em quando lá conseguia convencer uma delas. O grau de parentesco entrelaçava-se em cada olhar, ali todos eram meio-irmãos. 

Um dia a mãe deixou de lhe alimentar, apaixonou-se por outro macho que andava por ali a rondar a eira. Era um macho coxo e gordo, de um cinzento caca assustador, com algumas cicatrizes no focinho, mas como o amor é cego, e ele possuía a melhor rocha dos cinquenta metros quadrados mais próximos, os dois juntaram as patas e foram viver juntinhos, ele fez-lhe uma cama com algas e saltou-lhe para cima, foram dois minutos de puro martírio. 

E a foca branca? A foca branca é agora estrela de um reality show, onde mais focas brancas e fofinhas vivem vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas todas juntas, na esperança de fazerem presenças na disco Mar Bravo do Sul.