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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Oração

24
Mai22

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Ilustração Alicia Varela
 
 
Se eu rezasse, pediria compaixão
para os que não amam, para os que não sabem
para onde olhar quando estão sós e lhes falta
um rosto amado na memória, para os que
olham para uma flor e só pensam no dia em que
irá morrer. Talvez o amor não seja a única
salvação dos que precisam de tudo, nem
a cura para os males de quem não sabe
o que é o sonho. Porém, sem ele, as suas mãos
serão ainda mais vazias, e as suas noites
não terão o horizonte de uma luz ao
amanhecer. Penso em todos eles, por
quem rezaria, se eu rezasse, e é o teu rosto
que eu vejo à minha frente, são as tuas mãos
que procuram as minhas, e é a tua existência,
só pelo facto de existires, que acende
na minha noite cada futura manhã. E rezo,
afinal, no fim de tudo, rezo para que a tua voz
não me falte, o teu corpo se vista com o perfume
do campo e por ti corra, sempre, o rio deste amor.
 
 
Poema de Nuno Júdice 

A indiferença

29
Jan22

No inverno de 2022, na cidade luz, numa rua de muito movimento - Rue de Turbigo, no bairro dos cafés, a poucos metros da Place de la République, entre uma loja de vinhos e uma de óculos, um homem de oitenta e poucos anos caiu e ficou desmaiado na rua, sem que ninguém o socorresse ficou nesse estado durante nove horas, pelas seis e pouco da manhã do dia seguinte um sem-abrigo deu o alerta às autoridades de socorro, no entanto o tempo tratou de tudo, o homem morreu de hipotermia grave, morreu porque não houve ninguém que tivesse tempo para parar, nem ninguém que fizesse um esforço por perceber o que poderia ter acontecido, nem quem tivesse empatia, ou solidariedade, ou amor ao próximo, um pouco de compaixão, ou de coragem, sim porque durante aquelas nove horas uma grande quantidade de cobardes passaram por ali e nada fizeram. Foi “morto pela indiferença”. Esse homem era René Robert, fotografo de renome, mas poderia ser qualquer outra pessoa, assusta pensar para onde podemos estar a caminhar.