Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

As mulheres

12
Out25

IMG-20251012-WA0017 

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Poema Daniel Faria , in Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)

 

Conversas da escola - Amor incondicional

08
Set18

 

IIlustração Bill Mayer

 

 

 

Ontem recebemos um telefonema que nos deixou muito felizes, depois de ouvir falar mal constantemente sobre o nosso trabalho é bom saber que existem caminhos que acabam em bem.

 

- ...eu sou a avó do...e estou a telefonar para vos agradecer tudo o que fizeram pelo meu neto...ele agora está bem, já deixou as más companhias, está a trabalhar e gostam muito dele lá no trabalho, é para vos agradecer...

 

Ficamos arrepiadas, as notícias boas raramente nos chegam aos ouvidos, são muitos miúdos, mas lembro-me daquela avó, cujo o neto vinha de outra escola, porque ela queria que ele se endireitasse, lembro-me que telefonava para a escola quase todos os dias, senão mais que uma vez ao dia - ele já era um adolescente grandote - e perguntava se ele já tinha entrado, porque ele não lhe atendia o telefone e ela queria confirmar, e então eu recebia ordens para ir até à sala disfarçadamente ver se ele estava na aula, dizíamos então à senhora que sim que estava na sala de aula e ela ficava aliviada. 

 

Ficamos tão-encantadas por este agradecimento tão genuíno e despretensioso. E eu fico a pensar naquela avó guerreira que nunca desistiu do neto, que sempre insistiu e procurou alternativas àquilo que se estava a passar. Criou um objectivo e concretizou-o, pediu e muitas vezes implorou, mas conseguiu e nunca se acobardou, nem teve vergonha, foi à luta e muitas vezes em sofrimento, porque estes males fazem-nos doer a alma e derrubam-nos de uma forma permanente. Um grande bem haja para esta Senhora.  

 

 

 

 

 

Precaução

17
Jun17

Um mestre do Oriente viu um escorpião se afogando e decidiu tirá-lo da água, mas quando o fez, o escorpião o picou. Por conta da reação à dor, o mestre o soltou e o animal caiu na água e ficou se afogando novamente. O mestre tentou tirá-lo outra vez e novamente o animal o picou. Alguém que estava olhando o mestre se aproximou e lhe disse:

– Desculpe, mas o senhor é teimoso! Não vê que cada vez que tentar tirá-lo da água ele irá lhe picar?

O mestre respondeu:

– A natureza do escorpião é picar, e isso não irá mudar a minha que é ajudar.

Portanto, com a ajuda de uma folhas, o mestre tirou o escorpião e o salvou.

“Não mude a sua essência quando alguém lhe fizer mal, só tenha precaução.

 

 

 

 

 

Alice Alfazema