Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Menopausa

e hoje é o dia mundial

18
Out22

menopausa.jpg 

Fotografia Andrzej Berłowski

Meno encerra a ideia de mês, menstruação. Pausa é a ideia de que terminou por um tempo. Menopausa é a ideia de que encerramos o mês, a menstruação e fazemos uma pausa naquilo que éramos, voltamos então outras depois da pausa, para nos reencontrarmos connosco, cada uma em si, por isso o processo é tão diferente de mulher para mulher, apesar de semelhantes os sinais e os sintomas são dependentes daquilo que somos. 

Hoje fui à consulta de planeamento familiar, no SNS, que é onde vou desde sempre, desde há uns meses que não tenho menstruação, não sinto saudades disso, sempre foi um fardo para mim ter de andar com um penso nas cuecas, dores de costas, dores de cabeça, dores de barriga, com a preocupação em sujar a roupa de sangue, na escola, no trabalho, nos transportes públicos, em férias, um desconforto de quase uma semana por mês, durante mais de quatro décadas.

Antes da consulta com a médica, fui atendida pela enfermeira, que me pesou, mediu a tensão e fez-me alguma perguntas sobre como me sentia de entre outras, não sinto calores, nem insónias, apenas tenho em mim que sou outra, sou agora uma outra que não consegue controlar as emoções, que até sente vontade de chorar, mas não choro, ou melhor como disse à  enfermeira, eu não choro, mas é como chorasse por dentro, uma vezes estou bem outras não, quando não estou bem, espero que passe, que é o que eu faria se tivesse que coexistir com uma pessoa temperamental, dá-me para comer, dá-me para ser preguiçosa, dá-me para não ter paciência. Pois, disse-me ela, sabe são as hormonas, que se vão e fazem-nos tanta falta. Eu sei, eu antes não sabia o que tinha, agora eu sei: eu tenho menopausa. 

Escolhi esta fotografia para ilustrar este tema, porque é assim que me vejo, a perder as cores que tinha, a transformar-me, muito mais consciente que na transformação da adolescência, será uma transformação sem volta, apenas de um caminho, mais curto, vou ter de aprender a conhecer-me nesta nova fase, há coisas das quais já não preciso, não preciso de comer tanto, nem de me preocupar tanto, há outras que tenho de mudar, tenho de mudar a alimentação, exercitar os músculos, porque a perda muscular nas mulheres começa aos cinquenta anos, assim vou nascer, talvez como as cigarras que depois de dezassete anos debaixo de terra nascem para viverem de forma alucinante o seu ultimo  e primeiro Verão a cantar ao sol.