Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A biologia do Beijo

um beijo roubado...ūüíč

12
Jun21
O beijo √© pr√≥prio do Homem? N√£o, os chimpanz√©s e, em particular, os chimpanz√©s pigmeus, os bonobos, praticam o beijo ‚Äď o toque dos l√°bios - como ali√°s tamb√©m os mais diversos jogos er√≥ticos, no quadro das suas rela√ß√Ķes sociais. Contudo, o Homem exibe uma diferen√ßa importante: os seus l√°bios s√£o revirados para fora, exibindo a fina mucosa avermelhada.
 
 

b1.jpg

 

Poder-se-ia pensar que se trata de um caracter sexual secund√°rio selecionado pela evolu√ß√£o, qui√ß√° relacionado com o sucesso reprodutivo. Nada disso; diz o zo√≥logo Desmond Morris que a raz√£o √© bem diferente, que decorre o facto de nascermos prematuros e com muitas caracter√≠sticas ‚Äúlarvares‚ÄĚ (neotenias, diriam os s√°bios); portanto, nascemos com os l√°bios revirados para fora porque, √† data, ainda n√£o estavam acabados. T√£o simples quanto isso!
 
 

beijo2.jpg

 

Entre outras fun√ß√Ķes, os l√°bios s√£o os principais atores do beijo. Em tempos recuados, as m√£es alimentavam os filhos pr√©-mastigando os alimentos e transferindo-os de boca a boca, e empurrando-os com a l√≠ngua, como se observa nos chimpanz√©s. O contacto com a l√≠ngua constituiria, portanto, um momento prazeroso, gerador de uma emo√ß√£o positiva. Com a descoberta do fogo e a cozedura dos alimentos, esta pr√°tica ter√° deixado de fazer parte do card√°pio comportamental dos humanos. Mas esta rel√≠quia dos prim√≥rdios da hominiza√ß√£o manteve-se, atravessou os mil√©nios, carreando, segundo as √©pocas e as culturas, os dois significados, de amizade fraterna ou de amor: o beijo da ‚Äúfraternidade socialista‚ÄĚ de Leonid Brezhnev e Eric Honecker, t√£o publicitado √† √©poca, n√£o ter√° tido o mesmo significado do beijo em Paris, imortalizado pela bela foto de Robert Doisneau.
 
 

b3.jpg

 

 
Para al√©m de exibirem as mucosas avermelhadas, em consequ√™ncia da proximidade dos vasos sangu√≠neos √† superf√≠cie de uma pele particularmente delgada, os l√°bios s√£o acionados por 12 m√ļsculos dos quais o orbicular √© o principal. Esta estrutura confere aos l√°bios uma grande plasticidade e faz deles um dos principais agentes da comunica√ß√£o oral e m√≠mica. A presen√ßa de um elevado n√ļmero de recetores sensoriais subjacentes √† pel√≠cula cut√Ęnea, adiciona-lhes um outro atributo: a sensibilidade ao toque e √† temperatura.
 
 
 

b4.jpg

 

 
Nos bastidores de um beijo amoroso a complexidade fisiol√≥gica √© indescrit√≠vel pois, para al√©m de fazer intervir um n√ļmero elevado de m√ļsculos (cuja coordena√ß√£o cabe ao c√©rebro exercer), as mensagens nervosas emitidas pelos l√°bios desencadeiam um cocktail explosivo de neurotransmissores e de hormonas, e induzem a forma√ß√£o de imagens mentais er√≥ticas e de rea√ß√Ķes f√≠sicas que, no essencial, nos passam despercebidas porque s√£o processadas em zonas do c√©rebro das quais n√£o temos qualquer ‚Äúfeedback‚ÄĚ consciente, como o tronco cerebral e o sistema l√≠mbico.
 
 

b5.jpg

 

A complexidade √© ainda exacerbada quando ao beijo se adiciona a interven√ß√£o da l√≠ngua (fazendo subir para 29 ou mais, os m√ļsculos implicados), as suas papilas gustativas e o epit√©lio olfativo; e n√£o esque√ßamos que as m√£os n√£o ficam quietas. O c√©rebro centraliza as informa√ß√Ķes relativas √† temperatura, ao paladar, ao odor, ao aroma, ao tato e ao toque e aos movimentos do parceiro. Uma parte dessa informa√ß√£o √© transmitida √† zona cerebral que a localiza no ‚Äúmapa geogr√°fico‚ÄĚ do corpo (c√≥rtex somatosensorial).
 
 

b6.jpg

 

 
De in√≠cio, o beijo gera stress que se traduz pela transpira√ß√£o e acelera√ß√£o do ritmo card√≠aco; as veias dilatam-se e as faces ruborizam-se, a respira√ß√£o torna-se irregular e profunda, as pupilas dilatam-se (raz√£o pela qual h√° tend√™ncia para fechar os olhos nesse momento). Mas, uma vez o beijo iniciado, sobrevem a ‚Äúdescompress√£o‚ÄĚ pela queda do teor cortisol (hormona do stress) e da subida da ocitocina, a hormona do bem-estar e da confian√ßa. Concomitantemente, assiste-se √† liberta√ß√£o de dopamina no tronco cerebral, o neuro-transmissor que ativa o desejo e interv√©m nos circuitos da recompensa (prazer).
 
 

b7.jpg

 

Lembra-nos a antrop√≥loga Helen Fisher que n√£o podemos esquecer que, no ponto de vista biol√≥gico, o fim √ļltimo do beijo e das permutas afetivas, √© a reprodu√ß√£o. Todos estes mecanismos n√£o foram criados e aprimorados simplesmente para o deleite dos homens e mulheres. Os genes t√™m sempre a sua fisgada; e essa √©, indubitavelmente, a sua conserva√ß√£o pela perpetua√ß√£o da esp√©cie.
 
 

b8.jpg

 

 
Compreende-se assim que, enquanto os amantes se beijam, os respetivos corpos n√£o descansem; eles n√£o ‚Äúdormem em servi√ßo‚ÄĚ e procedem a um vasto leque de an√°lises que informam sobre a compatibilidade do parceiro com vista √† procria√ß√£o. N√£o s√≥ o odor e o aroma s√£o apreciados, mas tamb√©m elementos que se permutam atrav√©s da saliva e que informam sobre compatibilidade dos sistemas imunit√°rios. Em m√©dia, em cada beijo, trocam-se 9 ml de √°gua, 0,7 mg de prote√≠nas, 0,18 mg de outros compostos org√Ęnicos, 0,71 mg de l√≠pidos diversos e 0,45 mg de cloreto de s√≥dio. √Č igualmente permutado um n√ļmero elevado de bact√©rias (muitos milh√Ķes!) pertencentes a 278 esp√©cies diferentes, 95% das quais n√£o s√£o patog√©nicas para pessoas imunologicamente compat√≠veis.
 
 

b9.jpg

 

Envolvidos pelas emo√ß√Ķes inerentes ao beijo, os dois participantes n√£o se apercebem do que se passa ‚Äúnas suas costas‚ÄĚ. Mas o resultado do escrut√≠nio formula-se-lhes na mente em termos de gostar ou n√£o gostar, de gostar mais ou menos, ou gostar muito ou nada.
 
 

b10.jpg

 

 
Para al√©m do prazer que proporciona e de todo o desencadear de emo√ß√Ķes, o beijo encerra uma magia que pode vencer montanhas de resist√™ncias. Na verdade, entre os compostos org√Ęnicos permutados pela saliva, figura uma hormona que no homem √© mais abundante: a hormona do desejo... a testosterona!
A transfer√™ncia de um ‚Äúquanta‚ÄĚ de testosterona do homem para a mulher pode ter um efeito m√°gico e anular instantaneamente qualquer hesita√ß√£o!
 
 

b12.gif

 

 
 
Testosterona... a suprema magia do beijo!
 
 
Texto do Professor Jorge Ara√ļjo

Beijo

13
Abr14

 

Beijo na face 
Pede-se e dá-se: 
             Dá? 
Que custa um beijo? 
Não tenha pejo: 
             Vá! 

Um beijo é culpa, 
Que se desculpa: 
             Dá? 
A borboleta 
Beija a violeta: 
             Vá! 

Um beijo é graça, 
Que a mais não passa: 
             Dá? 
Teme que a tente? 
√Č inocente...¬†
             Vá! 

Guardo segredo, 
Não tenha medo... 
             Vê? 
Dê-me um beijinho, 
Dê de mansinho, 
             Dê!

 

Jo√£o de Deus

 

 

 

Alice Alfazema