#diariodagratidao 07-03-2019
O dia hoje foi tão banal. Choveu, fez sol, fez vento, fez frio e houve coscuvilhices.
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O dia hoje foi tão banal. Choveu, fez sol, fez vento, fez frio e houve coscuvilhices.

Ilustração Raissa Figueroa
As pessoas falam, especializam-se, dão opiniões fundamentadas, têm argumentos, objectos preferidos, crenças, sabem que em determinada idade é suposto fazer isto e aquilo, sabem que devem orientar-se para o futuro. Preocupam-se com a economia, com a violência, com o ambiente e com as outras pessoas.
Temos então um mundo construido na especialização da opinião e da experiência. Cada um com a sua pele tenta destacar-se do outro, cada um com a sua verdade, pensando que cada um é especial, um mais especial que o outro.
Como uma escada no universo, onde o primeiro degrau é desconsiderado. Alguns sobem e destacam-se lá no cimo, olham para baixo e têm o mundo aos seus pés. A sua visão parece ser abrangente. Mas estão demasiado longe para reconhecer o que se passa naquela imensa paisagem.
Lá em cima o tempo passa depressa, num ápice a vida se vai. Os anos correm e o tempo não abranda.
Afinal o que nos embala? São as emoções que nos embalam. É aquele abraço longínquo que nos foi dado na infância. É agradecer a quem te apara o pranto, quem te escuta quando falas.
São as banalidades que passam sem darmos conta e que damos por garantido. São as banalidades que não sabemos explicar, nem ousamos discutir, são as dos outros e as nossas, são coisas reles, apenas importantes quando nos julgamos no fim.
Alice Alfazema
O João Pedro é um rapazinho dos seus quatro anos, de pele muito branquinha, e muito traquinas. O João Pedro foi com os avós à praia, levou o seu baldinho e a pá. A avó do João Pedro também é muito branquinha e tem um fato de banho com flores cor-de-rosa. O avô do João Pedro é um homem que usa um calção vermelho e tem um bronze duvidoso, é bronzeado até um pouco acima dos cotovelos, um pouco na cara e pronto, acabou o bronzeado.
Os avós do João Pedro têm dois chapéus de sol muito coloridos e um corta vento branco. Puseram o corta vento ao redor dos chapéus de sol e colocaram-se os três dentro daquele território, longe dos olhares alheios. O João Pedro brincou durante muito tempo ali naquele espaço, de vez em quando ouvia-se a areia a bater no tecido do corta vento, enquanto a avó gritava:
- Está quieto João Pedro.
- Pára com isso João Pedro.
- Daqui a nada levas uma palmada João Pedro.
- Não levantes areia João Pedro.
- Estás habituado a que te façam as vontades todas, não pode ser João Pedro.
- João Pedro está quieto.
Entretanto o João Pedro foi com os avós até à água e voltou sequinho para aquele espaço mágico, sequinho, sequinho, sequinho...
E voltou-se a ouvir:
- Está quieto João Pedro.
- Pára com isso João Pedro.
- Daqui a nada levas uma palmada João Pedro.
- Não levantes areia João Pedro.
- Estás habituado a que te façam as vontades todas, não pode ser João Pedro.
- João Pedro está quieto.
Tenho a certeza que o João Pedro vai guardar para sempre no seu grande coração este maravilhoso dia na praia com os avós. Vai lembrar-se que ninguém se levantou para jogar à bola com ele. vai recordar-se que nem fizeram castelos na areia. Que nem chegou a saber que ali pertinho, pertinho havia rochas com as criaturas do mar que ele só vê na televisão, e que os peixes são capazes de nadar até à beirinha da água.
- Ó João Pedro ainda estás aí?
Alice Alfazema
Levantei-me ainda era noite, o cão nem se mexeu. Preparei-me, fiz a marmita, comi as torradas e bebi o leite, mas antes já tinha estendido roupa. Nessa altura a lua acenou-me enquanto uma estrela ainda brilhava, por baixo delas passava um avião, ouvi o barulho dos motores. Na rua um melro piou. Vim comer as torradas para aqui, e já bebi um café, meu amigo inseparável. Agora vou por-me ao fresco, que se faz tarde. O cão continua a dormir.
Bom dia!
Alice Alfazema