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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Presença

06
Jun19

 

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Fotografia Artur Pastor

 

Há no mar uma presença que me chama, são vozes vindas de longe, de muito longe, onde a minha alma liquida quereria chegar. Não sei localizá-las, apenas as sinto. Estarão brincando nas ondas? Ou em águas profundas? No meio de tempestades? Ou em mares cristalinos? Sinto o sal na boca e nos dentes, incham-me os lábios da salmoura. Fico assim durante horas. É como se o mar falasse por mim.

 

Aquelas águas escuras fazem-me sonhar com mil mundos ali debaixo. É fria a água, como a morte. Tenho medo de nadar ali, mas gosto de ficar parada a olhar e a imaginar o que ali se passa.

 

Estou a boiar, a água abraça-me, acolhe-me naquela presença que sinto, onde estão meus avós e meu pai que navegaram nestas águas. Nunca me disserem que tinham medo de tempestades. Uns valentões, que navegavam em tábuas pintadas de cores garridas. 

 

Contavam aventuras de gaivotas que perseguiam os barcos, de golfinhos saltitantes, de peixes escamudos, de dias de muito sol, de sentir as pernas bambas de tanto puxar a rede. Nunca falavam do desgosto da rede vazia, amanhã era outro dia. Nova faina, novo mar, outro sol, outra esperança.

 

#diariodagratidao 19-01-2019

19
Jan19

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Ontem vi papoilas, não tão vermelhas como esta, eram pequeninas e frágeis, abanavam com o frio que se fazia sentir. A sua vida é breve, desfolham-se rapidamente, mas enquanto cá estão alegram os campos e as beiras da estradas. Tornam o nosso caminho mais colorido.

 

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Este era um bolo que a minha sogra costumava fazer, este fiz eu, o prato deu-mo ela.

 

 

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Aqui é uma janela de uma casa onde já fui feliz, e este é um brinquedo que pertenceu ao meu marido.

 

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Hoje o meu sogro faz oitenta anos, tem Alzheimer, há três anos que está num lugar onde é cuidado, não sabe que dia é hoje, nem que horas são, nem dizer se tem frio ou calor. Se lhe perguntamos se está tudo bem responde: está tudo bem. Perdeu o raciocínio. A capacidade de agir, mas continua fiel a si próprio: sereno.

 

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Das coisas que ele mais gostava de fazer era tratar das plantas, no quintal havia milhentas flores e florinhas. Estas são algumas das fotografias que tirei dessas flores.

 

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- Olha, anda cá ver esta, é nova!

 

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- Tens aqui hortelã da ribeira e lucia-lima para fazeres um chá, apanhei há bocadinho. Quando quiseres mais é só pedires.

 

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- Querem cá vir comer moamba de galinha?

 

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- Onde está o João?

- Foi com o avô até ao jardim para jogarem à bola.

- Foi com o avô ver os barcos.

- Foi com o avô jogar ténis.

 

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- Nós vamos à Figueirinha depois do trabalho, quererem vir? Depois dão banho aos miúdos aqui, jantam e vão para casa.

- Está bem, até logo.

 

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- Olha lá esta rosa, é bonita não é?

 

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-E esta?

 

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- Querem cá vir comer sardinhas assadas? Estão gordas.

 

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- Hoje o teu sogro é que fez os bombons de amêndoa. 

 

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São vozes que ficam, mesmo sem já cá existirem. Quando o vamos visitar, eu e o meu marido levamo-lo a um sítio onde há bolos e moscatel, também há música de fundo no ar, fingimos então que está tudo dentro dos conformes, apreciamos o moscatel e o doce, perguntamos e respondemos, e no fim o meu marido pega no braço do pai e pergunta: Vamos embora pai?  

 

Hoje estou grata por ter existido este tempo e por os meus filhos terem tido uns avós presentes, eu sei que esse tempo jamais voltará, mas eles ficarão para sempre em nós.  

 

 

 

O João Pedro

14
Ago17

O João Pedro é um rapazinho dos seus quatro anos, de pele muito branquinha, e muito traquinas. O João Pedro foi com os avós à praia, levou o seu baldinho e a pá. A avó do João Pedro também é muito branquinha e tem um fato de banho com flores cor-de-rosa. O avô do João Pedro é um homem que usa um calção vermelho e tem um bronze duvidoso, é bronzeado até um pouco acima dos cotovelos, um pouco na cara e pronto, acabou o bronzeado. 

 

Os avós do João Pedro têm dois chapéus de sol muito coloridos e um corta vento branco. Puseram o corta vento ao redor dos chapéus de sol e colocaram-se os três dentro daquele território, longe dos olhares alheios. O João Pedro brincou durante muito tempo ali naquele espaço, de vez em quando ouvia-se a areia a bater no tecido do corta vento, enquanto a avó gritava:

 

- Está quieto João Pedro.

- Pára com isso João Pedro.

- Daqui a nada levas uma palmada João Pedro.

- Não levantes areia João Pedro.

- Estás habituado a que te façam as vontades todas, não pode ser João Pedro.

- João Pedro está quieto.

 

Entretanto o João Pedro foi com os avós até à água e voltou sequinho para aquele espaço mágico, sequinho, sequinho, sequinho...

E voltou-se a ouvir:

 

- Está quieto João Pedro.

- Pára com isso João Pedro.

- Daqui a nada levas uma palmada João Pedro.

- Não levantes areia João Pedro.

- Estás habituado a que te façam as vontades todas, não pode ser João Pedro.

- João Pedro está quieto.

 

 

Tenho a certeza que o João Pedro vai guardar para sempre no seu grande coração este maravilhoso dia na praia com os avós. Vai lembrar-se que ninguém se levantou para jogar à bola com ele. vai recordar-se que nem fizeram castelos na areia. Que nem chegou a saber que ali pertinho, pertinho havia rochas com as criaturas do mar que ele só vê na televisão, e que os peixes são capazes de nadar até à beirinha da água. 

 

- Ó João Pedro ainda estás aí?

 

 

 

Alice Alfazema

 

As avós são...

16
Fev14

 

Recebido por email. Não interessa quem escreveu, se criança, se adulto, o que interessa é que existem grandes verdades nesta cartinha. Quem tem uma avó é que sabe. Eu tenho muitas saudades da minha. Aproveitem a vossa se puderem, senão inventem uma, há sempre alguém que está disponível para esse papel, é só tomar atenção ao nosso redor. 

 

Alice Alfazema