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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Chá de violetas (4)

Robinson Kanes

03
Mai20

chá de violetas.jpg

 

O dia hoje está tão quente que vamos beber o chá com violetas com umas pedrinhas de gelo. Este calor faz-me lembrar mergulhos e caminhadas à beira-mar, o cheiro a maresia no ar, gaivotas rasando as ondas e a fazerem inveja aos que as olham e queriam também eles ganhar asas. Assim, mesmo sem asas, hoje tenho aqui na minha sala, paisagens que muito amo, e das quais tenho imensas saudades, só me faltam os cheiros, porque em palavras o Robinson, descreveu-as com o requinte de um viajante experiente e observador, apelando deste modo à nossa vontade de ir e conhecer mais e mais, esses recantos que para mim são mágicos, singulares e encantadores, e que todos os que puderam ver, talvez partilhem também as mesmas emoções, quando se elevam neste pedaço de barro vermelho que é depois engalanado pela nossa Mãe Natureza. 

 

 

 

 

My Dear Arrábida
 
 
 
 
 
Quando só há gaivotas e solidão, é que a Arrábida se revela, se entrega inteirinha.
Sebastião da Gama, in "Diário"
 

 

 

 

Existe um pequeno cantinho, naquele que é talvez o mais diversificado distrito do país. Um cantinho que nos transporta para um mundo novo e completamente diferente. Passadas as colinas da Serra do Louro ou da Serra do Risco, ergue-se uma paisagem abençoada pelos deuses, a Serra da Arrábida.

 

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Sebastião da Gama terá sido o grande poeta que foi, muito por culpa dos ares que se respiram daquelas terras. A pé ou de bicicleta, ou simplesmente estático a apanhar sol, a sentir a água do Atlântico, que ali tem uma cor especial, ou até, bem lá em cima, no Miradouro do Norte, a receber o ar marítimo - mil e uma histórias se cruzam e onde a Terra, não só a Humanidade, conta a sua longa história.

 

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A cor da terra nas botas ou nas rodas da bicicleta - vens da Arrábida, com os pneus assim - mostram que chegámos de uma outra dimensão. Que percorremos vinhedos, que andámos por densos matagais, pelo alcatrão quente de Verão e por alguns dos mais belos trilhos do mundo. Em cada curva, em cada elevação encontramos os frutos da terra, que não se resumem às tão apreciadas uvas, mas também a um sem número de cultivos, um sem número de aves e bichos rasteiros, um sem número de casas apalaçadas, belíssimas paisagens e até alguns dos mais belos cães de raça "Serra da Estrela", quem diria...

 

Entre Palmela e Setúbal, entre Azeitão e Sesimbra, parar para um queijo, para uma torta e um chá, para um inesquecível roxo - um dia é pouco para se dizer que se conhece aquele mundo. Dúvidas? Peguem em tudo isso, invadam a Bataria do Outão e sentem-se em cima do mar... Coloquem a toalha junto de uma peça de artilharia de costa e deixem que a natureza e as iguarias da região façam o resto. Desçam e subam, parem para mergulhar...

 

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A Arrábida é mais que o passeio pelo seu alcatrão, é ir serra e mato adentro, é chegar sujo, cansado e acima de tudo, então aí sim, terminar com um peixe bem grelhado no Portinho ou mesmo em Setúbal, com uma mesa e tudo aquilo a que temos direito. 

 

Deixemos que "Serra-Mãe", do grande poeta com apelido de navegador, nos embale nestas aventuras... Para isso, sentemo-nos no caminho dos moinhos, já na Serra do Louro, e fechemos os olhos... Vamos escutar as palavras, vamos ouvir os rebanhos e os uivos do vento do Atlântico, que atravessam o Sado e entre os encontros com a serra chegam ao Tejo, bem visível lá ao longe.

 

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Deixemo-nos embalar e quando as luzes do Castelo adornarem a paisagem nocturna de Palmela, deixemos a serra para os seus habitantes nocturnos e encontremos uma renovada cidade de Setúbal e se, não queremos deixar as alturas, nada como um copo no Forte de São Filipe e aí teremos a cidade aos nossos pés e Tróia a chamar por nós, quiçá para o dia seguinte.

 

 

Obrigada Robinson, gostei muito deste passeio maravilhoso, num espaço que me é tão querido. 

 

 

Vizinho:

Não É Que Não Houvesse...

 

 

 

 

 

O meu tesouro

04
Out14

Hoje sentei-me à beirinha do Atlântico. As suas ondas rasteirinhas vieram ter comigo, fizeram-me festas de sal. Estive assim, por muito tempo, contemplando e sentindo aquela imensa massa azul. Passaram cães e pessoas. Uma abelha pousou na minha toalha amarela, enquanto eu lia. No meu livro uma aranha minúscula poisou entre as páginas, vinda sei lá de onde, sei que conseguem atravessar oceanos, levadas pelo vento, seres minorquinhas que já viveram uma aventura tão grande. A praia está com pouca gente, o silêncio impera, consigo ouvir um canto de pássaro. As cigarras estão caladas, não sei se voltam a cantar este ano. Os chapéus de sol contam-se em menos de três dígitos. Algumas pessoas bronzeiam-se, mas desconfio que o que ali procuram é a Paz e o Silêncio. O vento brinca, à minha beira, gosto desta expressão nortenha, sinto o aconchego das brisas marinhas, e compreendo na pele os poemas que Sebastião da Gama dedicou a esta Serra. Paira no ar uma saudade das férias. Espero que o descanso venha ter comigo. Sinto o Sol nas minhas costas. Vejo ainda uma gaivota que paira, ao fundo as escarpas agarradas à vegetação rasteira, da qual conheço tão bem o cheiro. As nuvens sorriem-me, aceno-lhes mentalmente. Eu aqui estendida, depois sentada ou com os pés na água salgada e fresca, fico olhando tudo e absorvendo cada mensagem que o Verde e o Azul me mandam. Fico guardando a praia e a serra dentro de mim, para poder buscá-las quando me aprouver, quando em mim as forças falharem e a energia estiver enfraquecendo. Um tesouro no meu coração. 

 

Alice Alfazema