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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Ano internacional do vidro

2022

05
Nov22

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Quando a Terra ‚Äúse concebeu a si mesma na grande forja de fogo da pr√≥pria atividade c√≥smica‚ÄĚ, no acontecimento das manifesta√ß√Ķes terrestres que desenvolveram aumentos de temperatura e levaram √† fus√£o da areia, quartzo e rochas s√≠licas, originou-se este fen√≥meno do vidro natural ou vidro vulc√Ęnico, que persiste no seu estado natural e prim√°rio.

Aurora Faustino Gato

 

O vidro √© uma subst√Ęncia s√≥lida e amorfa feita de areia l√≠quida, maioritariamente di√≥xido de sil√≠cio (SiO2), mas tamb√©m carbonato de s√≥dio (Na2CO3) e carbonato de c√°lcio (CaCO3). Existem diversos m√©todos de produ√ß√£o de vidro, nomeadamente a produ√ß√£o qu√≠mica de vapor, a pir√≥lise, a irradia√ß√£o de neutr√Ķes, entre outros.


No processo cl√°ssico de fus√£o ou resfriamento, o vidro funde a uma temperatura de cerca de 1,500¬ļC, passando do estado s√≥lido ao estado l√≠quido,¬† √© neste estado que se d√° in√≠cio √† sua moldagem e consequente¬† transforma√ß√£o. Num alto n√≠vel¬†de pureza, o vidro √© um √≥xido met√°lico transparente, com dureza elevada, inerte e biologicamente inactivo,¬† o vidro n√£o √© considerado uma subst√Ęncia s√≥lida ou l√≠quida, mas sim uma subst√Ęncia s√≥lida n√£o cristalina. Ao contr√°rio dos cristais, o vidro apresenta um¬† arranjo at√≥mico n√£o peri√≥dico e n√£o sim√©trico, formando-se de forma aleat√≥ria.

O vidro tem-nos vindo a acompanhar ao longo dos s√©culos, melhorando o nosso bem-estar e a nossa qualidade de vida, tornando-se assim num dos materiais mais vers√°teis e importantes da nossa hist√≥ria. Por esta raz√£o, a Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas (ONU) aprovou a comemora√ß√£o do Ano Internacional do Vidro em 2022, para que se conhe√ßam as suas caracter√≠sticas que, combinadas com o engenho humano e a criatividade, podem ser aplicados em campos t√£o diversos como a arquitectura, a engenharia, a arte, de entre outros.¬†

 

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Durante o s√©culo XIII, a ilha de Murano em Veneza, tornou-se um centro de fabrica√ß√£o de vidro, onde desenvolveram o vidro excepcionalmente¬†claro e incolorcristallo, assim denominado pela sua semelhan√ßa ao cristal natural e, utilizado maioritariamente em janelas, espelhos, lanternas e lentes. No final desse s√©culo, a Rep√ļblica de Veneza, ciente da excel√™ncia do trabalho dos mestres vidreiros locais, decretou que todos os fabricantes de vidro, trabalhadores, assistentes e suas fam√≠lias, passassem a viver na ilha de Murano e, para quem tentasse fugir da ilha existia a pena de morte. Entre os s√©culos XV a XVIII, a arte do vidro esteve envolvida num grande secretismo e sigilo e, os mestres vidreiros apontavam as suas receitas, composi√ß√Ķes e experi√™ncias realizadas em pequenos cadernos designados por arcanos.¬†

  

A arte vidreira em Portugal data do século XV,  trabalhos arqueológicos têm trazido à luz do dia vestígios de fornos de vidro em toda a região do Ribatejo e da Outra Banda (margem sul do Tejo), assim como pelo restante país.

H√° quem indique a F√°brica do C√īvo, actualmente¬†perto de Oliveira de Azem√©is, como a primeira manufactura¬†de relevo em Portugal. Foi institu√≠da essa manufactura¬†por provis√£o de D. Jo√£o II, sendo que era uma ind√ļstria ainda muito elementar e que produzia vidro translucido, verde ou esverdeado. J√° o forno de Coina, que mais tarde viria a ser a Real F√°brica de Vidros de Coina, ter√° come√ßado a elaborar em 1498, primeiro em pequena escala, indo concorrer mais tarde com o forno do C√īvo. A determinada altura houve invejas e rivalidades e foram determinadas duas regi√Ķes de manufactura¬†de vidro, regi√Ķes essas divididas pelo rio Mondego.


A localidade de Coina era indicada para a manufactura do vidro pois reunia três condicionantes indispensáveis: a proximidade das areias de Coina, matéria prima essencial indispensável à fusão do vidro, a existência de madeiras (pinhal) para a alimentação dos fornos e o contributo e experiência técnica de mestres, vidreiros estrangeiros italianos, franceses, irlandeses, ingleses e alemães. Seguindo-se então depois um período de crise em que foi escassa a matéria prima (lenha, combustível vegetal), para manter os fornos a funcionar, a manufactura de Coina foi assim transferida para a Marinha Grande,  passando a denominar-se de Fábrica Real da Marinha Grande, com o tempo foram implementadas técnicas e tecnologias introduzidas pelos mestres vidreiros estrangeiros vindo a acontecer  posteriormente a manufactura proto-industrial.

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Vidro Depósito da Marinha Grande

 

 

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Do vidro nasceram os primeiros vitrais, que nos remetem aos tempos medievais, surgiram assim na Europa do século X, nas igrejas francesas e alemãs, incorporados na arquitectura gótica. Os vitrais tinham inicialmente por objectivo ilustrar as cenas bíblicas, contando as histórias por meio de figuras num tempo em que uma pouquíssima parcela da população sabia ler, tornaram-se essenciais na forma de guiar o povo de acordo com os ensinamentos religiosos através das suas figuras ilustrativas. A cor era o elemento primordial para que os vitrais através da luz que vinha de fora da igreja despertassem a curiosidade das pessoas em relação às histórias contadas na forma de ilustração, assim era também  um meio de atrair a população às igrejas, tornando a fé mais apelativa em comparação com as paredes cinzentas das catedrais góticas.

As t√©cnicas de execu√ß√£o dos vitrais foram aprimoradas ao longo da hist√≥ria. De entre outras¬†s√£o usadas duas t√©cnicas para a sua confec√ß√£o: os vitrais de chumbo e os vitrais de liga flex√≠vel. A diferen√ßa entre os dois est√° no chumbo. Como o pr√≥prio nome diz, no vitral com chumbo utiliza-se a liga de chumbo para unir as pe√ßas e formar o mosaico que √© a pe√ßa de vitral. No vitral de chumbo aplica-se a grisalha directo¬†no vidro, que depois ser√° levado ao forno e queimado a uma temperatura entre 630¬ļC e 640¬ļC, podendo chegar at√© 700¬ļC, na arte nasce ent√£o a cor, o volume, a luz,¬† e a sombra em cima do vidro colorido, quando esse processo estiver pronto, √© realizada a montagem com a linha do chumbo. No vitral com a liga flex√≠vel a pintura √© feita sobre uma placa de vidro, √†s vezes pontilhado, do tamanho da pe√ßa. A parte do volume √© realizada nesse vidro pontilhado, depois a placa √© queimada inteira no formo, finalmente os recortes de vidro originais s√£o encaixados em cima dessa placa. Os materiais s√£o praticamente os mesmos, mas h√° uma invers√£o da t√©cnica, em vez de se pintar no vidro colorido, pinta-se na base e encaixa-se o vidro colorido por cima. Considera-se que √© uma t√©cnica mais ecol√≥gica, que tem mais protec√ß√£o¬†e mais durabilidade que o tradicional, uma vez que o vidro colorido fica dentro de um ‚Äėsandu√≠che de vidro‚Äô, protegendo a pintura por mais tempo, e a durabilidade √© maior por n√£o estar t√£o exposta ao tempo.

 

E como a História nos revela, o vidro tem um lugar especial na evolução da arquitetura assim como nas nossas mesas, tornando-se hoje em dia verdadeiramente comum e democrático, presente no nosso quotidiano e na Arte sem nunca perder o ar mágico que o caracterizou ao longo dos tempos.

Aurora Faustino gato

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Nesta pesquisa feita depois de ter conhecimento que este ano √© dedicado internacionalmente ao Vidro, e sendo o Vidro t√£o¬†banal nos nossos dias, tanto que nem damos conta da sua import√Ęncia, foi surpreendente para mim constatar que n√£o sabia praticamente nada sobre o assunto, gostei especialmente de ler esta Tese de Mestrado¬†¬†DESIGN & VIDRO A Heran√ßa da Ind√ļstria Nacional da Marinha Grande,¬†Aurora Faustino Gato.

Fontes:

 Vitrais - Casa Ciano

MWNF - Museum With No Frontiers

A arte de trabalhar o vidro, Maria Andrade

C√Ęmara Municipal do Barreiro

DESIGN & VIDRO A Heran√ßa da Ind√ļstria Nacional da Marinha Grande,¬†Aurora Faustino Gato

Depósito da Marinha Grande

 

 

Anil

07
Mar22

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Lego aos meus amigos
um azul cer√ļleo para voar alto
um azul cobalto para a felicidade
um azul ultramarino para estimular o espírito
um vermelh√£o para fazer circular o sangue alegremente
um verde musgo para acalmar os nervos
um amarelo ouro: riqueza
um violeta cobalto para sonhar
um garança que faz ouvir o violoncelo
um amarelo barite: ficção científica, brilho, resplendor
um ocre amarelo para aceitar a terra
um verde veronese para a memória da primavera
um anil para poder afinar o espírito pela tempestade
um laranja para exercer a vis√£o de um limoeiro ao longe
um amarelo limão para a graça
um branco puro: pureza
terra de siena natural: a transmutação do ouro
um preto sumptuoso para ver Ticiano
uma terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra
uma terra de siena queimada para noção de duração.
 
 
Maria Helena Vieira da Silva
(texto encontrado nos papéis da pintora, após a sua morte)