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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Arrebol

Árvore de Natal

05
Dez22

dádiva.jpg Ilustração Karl Jóhann 

 

Deram-me um saco cheio de laranjas e clementinas pequenininhas, quando chegaram cá em casa ainda continham nelas as bagas gordas de chuva que caíram durante a noite, num ápice devorei uma clementina minúscula, o sabor agridoce escorreu devagar pela garganta. No fim engoli um sol.

 

Perfumada laranjeira,

Linda assim dessa maneira,

Sorrindo à luz do arrebol,

Toda em flores, branca toda

– Parece a noiva do Sol

Preparada para a boda.

E esposa do Sol, que a adora,

Com que cuidados divinos

Curva ela os ramos, agora!

E entre as folhas abrigados,

Seus filhos, frutos dourados,

Parecem sois pequeninos.

 

Poema de Júlia Lopes de Almeida

 

#diariodagratidao 15-08-2019

15
Ago19

agradecer.jpg

 

Ilustração Yiting Lee

 

Já fazem muitos dias que não escrevo aqui no Diário da Gratidão, coisa com que me comprometi, mas  que não cumpri. Não considero um falhanço, mas um desvio de conduta, até porque estar grato é  muito mais do que afirmar que se fez isto ou aquilo num pedaço de papel ou num ecrã de computador, ter gratidão é colocarmo-nos no lugar do outro também com acções e momentos reais no dia-a-dia. É por aí que tenho andado. 

 

No entanto, quero agradecer a todos vocês que passam por aqui, que me escrevem palavras de carinho, motivando-me, levando-me para sorrisos rasgados. Aos que me colocam favoritos, são mais de três mil, que mesmo sem palavras me dizem que estão aqui neste espaço que faço por ser um local de reflexão e de pensamento crítico, mesmo que o seja nas pequenas coisas da vida. Porque penso, e sei, que é nelas que nos focamos quando estamos perto do fim, ninguém se lamenta que queria ter feito mais relatórios ou que poderia ter feito mais reuniões de trabalho, daquilo que se vão lamentar é de não terem vivido as "pequenas coisas", os abraços, os sorrisos, estar mais tempo com a família, não ter tanto rancor, compreender o outro, fazer mais por um mundo melhor, ser mais activo, não ter medo e voar - é disso que se vão lamentar.

 

As coisas aqui são simples, não porque eu não tenha opinião, mas porque quero dar espaço a outros pensamentos que me levem até outros saberes, e que me deixem a pensar em outras abordagens, que sei que advêm das suas experiências de vida, é nessa base que cristalizamos as nossas opiniões. 

 

Neste barco que navego, poderei atracar em muitos portos, mas em nenhum deles ficarei, porque gosto de navegar, de sentir o gosto da Liberdade, só utilizo as amarras para meu descanso e a minha âncora é a minha família - como é bom dizê-lo - muitos não têm essa oportunidade de o dizer. Tenho muitos companheiros de viagem, uns vão e vêm, outros aparecem quando lhes dá jeito, às vezes querem comida, outras vezes dormida, e outras ainda só beber um café. Que me interessa que o façam desta maneira? Nada, não me interessa nada. Não sei compreender o ciúme e a inveja, nem as imposições, quero-me livre nesta viagem que faço ao sabor daquilo que encontro, que muitas das vezes não é o que preciso, mas é aquilo que tenho. Eles também, eles também.

 

Eu queria agradecer de uma forma suave, mas suave parece sem convicção, porque as coisas agora são definidas pela forma como te fundamentas, mesmo que isso queira dizer - nada - porque o que fazes não corresponde aquilo que pensas, nem aquilo que realmente queres. Chama-se a isto: integração. 

 

Eu não quero estar integrada, eu quero é viver, e é isso que faço, todas as vezes que me apetece. Obrigada por estarem aí. 

 

 

 

 

 

 

 

Conversa com a chuva

07
Abr19

 

Ilustração Alexi Torres

 

Assim mesmo
eu cá em baixo fico fascinado com a tua luz
e admirado como consegues ter essa voz grossa
que se ouve a quilómetros e quilómetros
de distância. Mas nunca tenho medo
porque sei que não estás zangada
e lembro-me que por vezes
dentro do meu corpo há um barulho assim
quando as vísceras andam às voltas porque
também eu comi mais do que devia.

 

 

E quando acabas
os rios estão mais cheios e levam
os barcos mais depressa
os peixes saltam a medir forças com a corrente
e transbordam as albufeiras das barragens
com a tua água
que irá produzir energia eléctrica
uma espécie de relâmpago que entra depois
nas nossas casas
sem nenhum barulho
e dura todo o tempo que quisermos.

 

 

Poema de Joaquim Pessoa