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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Quotidiano elástico

06.06.20, Alice Alfazema

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Ilustração Virginia Soriano Gayarre

 

 

Depois de tanto tempo sem ir às compras hoje fui ver as montras e pela primeira vez em meses entrei numa loja, comprei linha de algodão para crochet, elástico e tecido não tecido. Havia muita gente na rua, algumas pessoas andavam de máscara, outras nem por isso, umas tinham-nas ora no queixo, ora com o nariz de fora, as lojas estavam animadas de gente, não que tivessem apinhadas, nalgumas lojas apenas podiam entrar uma pessoa de cada vez, não havia filas nas lojas de roupa, apenas na sapataria. O colorido de gente a andar nas ruas dava uma animação visual de ânimo, um miúdo tocava guitarra no largo, e as árvores estavam floridas, enfim um dia quase igual a tantos outros do passado, não houvesse o medo escarrapachado a cada olhar mais atrevido. Agora são os olhares que se sobrepõem às outras expressões faciais. 

 

O mais estranho é o silêncio, como se andássemos pé ante pé, há gente na rua, pessoas de um lado para outro, gente nas esplanadas, mas não se ouvem as conversas. Parece-me que as pessoas têm medo de falar, será para o bicho não as ouvir? Faltam os risos a ecoar nas ruas. Faltam os gritos das mães que chamam os filhos. Falta tanto e quase tudo parece igual. Há as idas à praia, e os  grandes ajuntamentos para comemorar, mas comemorar o quê? A volta do lixo às praias, às ruas, à Serra? As festas a que se vai cheias de gente que se desconhece e não se sabe muito bem porque se está ali? 

 

É como se os vícios voltassem em força, depois de uma ressaca dura e brutal, em que pensámos que seríamos capazes de ultrapassá-los, tal como um drogado julga que é apenas mais esta vez. E as praias estão cheias de máscaras, rios de lixo descartável, as bermas da estrada que corre pela Serra estão atulhadas deste lixo, de garrafas, de tudo o que não querem carregar, que miséria, que "porca miséria". 

 

Passei pelos jacarandás em flor, olhei para o céu para visualizar aquele contraste de azuis, algumas nuvens faziam de conta que se escondiam entre os ramos. Fui ver o Rio, estava vento, e ele estava crispado, também eu me sentia assim, não dissemos nada um ao outro, nada havia por dizer, apenas vergonha, a minha. 

 

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